“Eu recuperei meus olhos devido às pílulas.”
Malcolm Muggeridge descreve a idade de medicamento moderno
em uma coluna de jornal 1962.

Por viver em uma nação industrializada, o agradecimento de Muggeridge ao poder das pílulas não é nenhuma hipérbole. O século XX viu uma transformação quase completa na nossa compreensão e tratamento das doenças infecciosas. Medicamentos efetivos têm reconfigurado nossa abordagem para a maioria das infecções de origem bacteriana ou fúngica, enquanto foram desenvolvidas vacinas efetivas contra infecções como varíola, sarampo, febre tifóide, rubéola, difteria, tétano, febre amarela, coqueluche e pólio.

Nas nações em desenvolvimento a história foi tragicamente diferente. Separados por pobreza, geografia, escassez de antimicrobianos e falta de projeto político por parte de governos, cujas prioridades raramente contemplam a saúde pública, os indivíduos que vivem em tais áreas, são deixados muito tempo às margens dos cuidados de saúde. Não obstante, o fato destas ferramentas contra infecção existirem e ainda serem efetivas, constitui o maior milagre da atenção à saúde dos últimos 500 anos. Aparte da vacina contra varíola, da quinina e da penicilina, poucas destas inovações foram descobertas acidentais. Ao contrário, foram o resultado de um esforço científico dedicado e de vastas quantias de dinheiro, tempo e trabalho humano durante décadas.

Balas mágicas e drogas milagrosas

Desde a teoria da “bala” mágica elaborada pelo microbiologista alemão Paul Ehrlich, como uma metáfora para curas feitas através de metais pesados (eventualmente usados para tratamento de infecções parasitárias e doenças sexualmente transmitidas) para a descoberta e lançamento da penicilina, a história da pesquisa antimicrobiana está repleta de vitórias sobre barreiras quase insuperáveis. Entre as contribuições de Ehrlich encontramos o primeiro uso de arsênico (Salvarsan) para o tratamento de sífilis e a primeira descrição da resposta imunológica do corpo humano para os organismos infecciosos.

Em 1928, o cientista britânico Alexander Fleming empurrou até mesmo mais adiante as fronteiras quando ele observou os efeitos antibióticos de uma substância elaborada por um fungo, que depois foi conhecida como penicilina. O produto deste achado tão simples, efetivo contra infecções até então consideradas fatais, provocou um entusiasmo tal, que os cientistas titularam esta substância como a “droga milagrosa”. A descoberta de Fleming desencadeou uma revolução nos cuidados à saúde, sem precedentes nos anais de ciência médica. Daquela espécime inicial floresceu uma família inteira de antibióticos derivados da penicilina.

Depois as descobertas incluíram a estreptomicina, tetraciclina, quinolonas, antifúngicos, antiparasitários e, mais recentemente os antivirais. Estas drogas, coletivamente conhecidas como antimicrobianos, salvaram a vida de milhões, reduziram os agouros das enfermidades infecciosas e permitiram o desenvolvimento de procedimentos cirúrgicos complexos, previamente considerados muito perigosos, devido ao risco de infecção no pós operatório. Ao mesmo tempo, antimicrobianos preveniram sequelas como surdez, cegueira, e deformidades resultantes de doenças como hanseníase e elefantíase.

Prêmio Nobel

Em 1927, o cientista alemão Gerhard Domagk descobriu com suas pesquisas a propriedade germicida dos derivados da sulfa, depois da sua observação que uma tinta vermelha brilhante, conhecida como Prontosil, curava ratos inoculados previamente com doses letais de estreptococos. Dos ratos, Domagk curou a própria filha que apresentava uma infecção estreptocócica persistente. O emprego do Prontosil no tratamento da febre puerperal reduziu sua letalidade de 20% para 4,7%, na Alemanha. O Instituto Nobel, impressionado pelas suas descobertas, premiou-o tardiamente em 1947, durante uma cerimônia especial na Suécia, depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

O progresso seguiu os passos das pesquisas de Domagk. Em 1938, uma equipe britânica conduzida por A.J. Evans desenvolveu outra sulfonamida, a sulfadiazina 693, que também provou ser efetiva tratando infecções estreptocócicas, inclusive pneumocócicas. Winston Churchill, entre muitos, pode creditar à droga a sua sobrevivência depois de ter contraído pneumonia, na conjuntura crítica da Segunda Guerra Mundial. Em 1940, o emigrado russo Selman Waksman isolou um fungo que permitiu o desenvolvimento da estreptomicina, a primeira droga com ação anti-tuberculose, outra descoberta agraciada com o Prêmio de Nobel. Muitos cientistas acreditaram que a tuberculose havia sido finalmente conquistada com o desenvolvimento de isoniazida. Porém, a nova droga também selecionou a resistência do bacilo. Em 1957, foi aparentemente resolvido este dilema quando em uma pesquisa do laboratório Lepetit, a equipe chefiada por Piero Sensi descobriu outra família de drogas anti-TB a partir das rifampicinas, nome dado posteriormente. Usada em combinação com estreptomicina e isoniazida em uma terapia a longo prazo estratégica, esta tríade de quimioterápicos conteve, até recentemente, o avanço desta doença, tida como galopante.

Uma calmaria na ação

Depois de inúmeras descobertas entre 1930 e 1970, os últimos 30 anos testemunharam um arrefecimento no encontro de novos princípios ativos. Nos anos 1970 a descoberta do acyclovir, potente contra o herpes zoster (cobreiro) e o herpes genitais, marcou pela primeira vez a possibilidade de se impedir a replicação viral com reduzida toxicidade para o paciente. Com o advento do HIV, a descoberta e desenvolvimento de antiretrovirais significou outro salto ainda adiante na luta contra as doenças contagiosas. A introdução de zidovudine (AZT) em 1985, uma década depois foi seguida pelo primeiro inibidor de protease.

Até hoje, existem mais de 150 compostos com ação antimicrobiana. Porém, o custo foi enorme. Companhias farmacêuticas gastam algo em torno de US$500 milhões em pesquisa e desenvolvimento para todo composto novo que vai comercializar. Para cada sucesso, há muitos fracassos. Todo patógeno que desenvolve resistência representa o desmantelando de uma legião de esperanças, sonhos e dólares. Hoje a resistência às drogas já está praticamente descartando medicamentos que levaram décadas para ser desenvolvidos.

Não é uma inovação a não ser que esteja amplamente disponível

Embora as drogas antimicrobianas salvem vidas e aliviem o sofrimento de milhões, os benefícios dos cuidado de saúde não se estenderam completamente para todos nos países em desenvolvimento. Pobreza extrema, serviço de saúde pública deficiente, desnutrição, acesso inadequado aos medicamentos, baixa qualidade assistencial e conflitos contínuos representam os principais obstáculos para um desenvolvimento saudável nestas nações.