As infecções primárias da corrente sanguínea (IPCS) são causa importante de morbidade e mortalidade em países em desenvolvimento, resultado da gravidade da doença em si e também do crescente percentual de patógenos resistentes aos antimicrobianos usualmente prescritos. O tratamento precoce, iniciado empiricamente, baseado no perfil de sensibildade dos patógenos mais frequentes na instituição, tem impacto direto na sobrevida e promove o uso racional de antimicrobianos.

O objetivo principal deste estudo piloto foi analisar a adequação da prescrição de antimicrobianos para o tratamento da IPCS confirmada laboratorialmente em duas unidades de terapia intensiva de um hospital universitário de grande porte, de acordo com o perfil de sensibilidade dos agentes isolados. Este estudo foi realizado retrospectivamente, analisando as infecções ocorridas no período de 01/01/2011 a 31/08/2012. Os dados foram obtidos por meio do banco de dados da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e por busca em prontuário médico.

No período estudado, 47 pacientes apresentaram IPCS, com isolamento de 57 patógenos em hemocultura. Vinte e dois (47%) eram do sexo feminino e 25 (53%) do sexo masculino, com média de idade de 58 anos (variando de 23 a 84). Quanto ao tipo de paciente, 19 (40%) foram acometidos de patologias clínicas e 28 (60%) submetidos a procedimentos cirúrgicos. A média de tempo para início do tratamento empírico foi de 38 horas, sem diferença estatisticamente significativa quanto ao tipo de paciente. O tratamento empírico foi considerado adequado em 58% dos casos, inadequado em 23% e não houve início de tratamento antes do resultado de cultura em 19%, sem diferença estatisticamente significativa entre tipos de paciente. Dos 57 patógenos isolados de hemoculturas, 42 (74%) Gram negativo e 15 (26%) Gram positivo, sendo os mais prevalentes Acinetobacter baumannii (31,6%), seguido de Klebsiella pneumoniae (8,8%), Pseudomonas aeruginosa (8,8%), Serratia marcescens (8,8%) e estafilococos coagulase negativo (8,8%). O Staphylococcus aureus foi isolado apenas em 7% das amostras, considerando os critérios institucionais. Quanto à multirresistência, o percentual geral foi de 53% (30/57), sendo Acinetobacter baumannii (78% – 14/18), Pseudomonas aeruginosa (60% – 3/5) e S. aureus (100%, 4/4) os patógenos com pior perfil de sensibilidade.

Estudo prospectivo com tamanho de amostra significativo deverá ser realizado para confirmar estes dados preliminares, que identificaram um percentual elevado de inadequação do tratamento das IPCS e de multirresistência. Os resultados finais poderão ser utilizados para nortear a revisão dos protocolos de tratamento definidos pela CCIH e a intensificação das medidas preventivas.

 

Autora: Cíntia Faiçal Parenti