A Fundação Oswaldo Cruz criou um portal específico com informações sobre a situação epidemiológica da febre amarela no brasil. Vale a pena navegar constantemente no portal à busca de novidades epidemiológicas e nas estratégias de prevenção desenvolvida pelas autoridades sanitárias no pais. Faço uma ressalva apenas à controvertida contraindicação de vacinação de pessoas acima de 65 anos, sem outras contraindicações da vacina, que embora difundida, não é consenso na literatura internacional.

O Ministério da Saúde também tem um portal sobre febre amarela, com muitas informações pertinentes, porém, este portal não é atualizado desde 2.008! Também utilizei, para informações adicionais, a mais recente edição do livro Principles and practice of infectious disease” (oitava edição). Destas fontes destacamos as respostas às seguintes questões:

O que é a febre amarela?

“A febre amarela é uma doença infecciosa aguda, de curta duração (no máximo 10 dias), gravidade variável, causada pelo vírus da febre amarela, que ocorre na América do Sul e na África”.

Qual microrganismo provoca a febre amarela?

“O vírus RNA. Arbovírus do gênero Flavivirus, família Flaviviridae”.

Como a febre amarela é transmitida?

“A febre amarela é transmitida pela picada dos mosquitos transmissores infectados. A transmissão de pessoa para pessoa não existe”.

Qual o papel dos macacos na transmissão da febre amarela?

“Segundo a Sociedade Brasileira de Primatologia (SBPr), o Brasil vive um dos períodos de maior mortandade de primatas da história devido à febre amarela silvestre no país. O quadro pode levar à extinção de espécies, prejudicando todo o meio ambiente. Os macacos são sensíveis ao vírus da febre amarela e a morte dos animais pela doença é um alerta aos órgãos de saúde sobre a necessidade de vacinação da população humana nos arredores. Ou seja, eles permitem aos gestores de saúde implementar estratégias preventivas, antes de o vírus atingir populações humana. Os primatas são tão vítimas da doença quanto os humanos, não a transmitindo diretamente. Assim como o homem, os macacos são hospedeiros do vírus e não reservatórios da doença. Os vírus ficam vivos neles por um período de tempo muito curto. O Centro de Informação em Saúde Silvestre (Ciss/Fiocruz) orienta que, ao encontrar um macaco morto ou com comportamento estranho, deve-se contatar a Secretaria municipal de Saúde”.

Quanto tempo depois da picada por inseto contaminado a doença começa?

“De 3 a 6 dias após a picada do mosquito.

Quais são os principais sintomas da febre amarela?

“Restrita a algumas regiões do Brasil, a febre amarela tem como sintomas iniciais febre, calafrios, dor de cabeça, dores nas costas, dores no corpo em geral, náuseas e vômitos, fadiga e fraqueza. Em casos graves, a pessoa pode desenvolver febre alta, icterícia (coloração amarelada da pele e do branco dos olhos), hemorragia e, eventualmente, choque e insuficiência de múltiplos órgãos. Se não for tratada rapidamente, a febre amarela pode levar à morte em cerca de uma semana”.

Por quanto tempo um paciente pode transmitir a doença a partir da picada de um mosquito vetor?

“Inicia-se de 24 a 48 horas antes do aparecimento dos sintomas e vai até 3 a 5 dias após o início dos sintomas, período em que o homem pode infectar os mosquitos transmissores. Esse período corresponde ao período de viremia. O mosquito, após ter sido infectado, é capaz de transmitir a doença por toda sua vida”.

Qual o tratamento disponível para casos de febre amarela?

“De acordo com especialistas, não há tratamento específico para a febre amarela. A vacinação continua sendo a principal medida de prevenção contra a doença, além do controle do vetor. Produzida pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), a imunização é oferecida gratuitamente no Calendário Nacional de Vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS)”.

A Febre amarela pode matar?

“A chance é muito elevada se a gente considerar as formas graves da doença, que pode chegar até 100%. Mas se a gente considerar que a febre amarela tem varias formas de apresentação clinica, esse índice se reduz, essa letalidade se reduz a uns 10%. Nos últimos 10 anos, a letalidade foi de 46%”.

Como está a febre amarela em 2018 até final da primeira quinzena de janeiro?

“O ano de 2018 começou, na saúde pública, com as atenções voltadas para a febre amarela. Dentro do atual período de monitoramento (julho/2017 a junho/2018), apenas em 2018, até o dia 8 de janeiro, foram confirmados 11 casos de febre amarela, sendo oito no Estado de São Paulo, um no Rio de Janeiro, um em Minas Gerais e um no Distrito Federal. Quatro casos evoluíram para óbito, sendo dois em São Paulo, um em Minas Gerais e um no Distrito Federal. Ao todo, foram notificados 381 casos suspeitos de febre amarela em todo o país no período, sendo que 278 foram descartados e 92 permanecem em investigação”.

“Especialistas do Ministério da Saúde (MS) e da Fundação Oswaldo Cruz seguem acompanhando a investigação de casos suspeitos de febre amarela silvestre em Minas Gerais. De acordo com os dados divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES/MG) na sexta-feira (13/1), existem 20 casos prováveis de febre amarela silvestre, com dez óbitos prováveis. Ao todo, são 133 casos suspeitos notificados e 38 mortes suspeitas da doença em 24 municípios”.

Como podemos nos prevenir da febre amarela?

“A prevenção contra a febre amarela se dá pela proteção contra a picada de mosquitos com o uso de repelentes e roupas protetoras e com o uso da vacina. A vacina é altamente eficaz e segura nos grupos indicados, conferindo, segundo orientação da OMS, proteção duradoura com uma única dose (o Brasil, no entanto, opta por recomendar e oferecer ao menos uma dose de reforço após 10 anos da primeira)”.

Quais as principais complicações da vacina?

“A vacina é feita a partir de vírus vivo atenuado, que produz imunidade duradoura (pelo menos 10 anos) em cerca de 95% dos vacinados. Ela tem sido associada com anafilaxia em 0,29 casos a cada milhão de aplicações, mas existe controvérsias se é desencadeada pelo ovo de galinha, gelatina ou o estabilizante empregado. Também raramente é associada a casos fatais por infecção sistêmica (2,5 a 4 por milhão de aplicações) ou do sistema nervoso central (2,5 a 8 por milhão de aplicações) pelo vírus vacinal. Estas infecções apresentam em média uma letalidade de aproximadamente 63%.

Quais as principais contraindicações da vacina?

“A vacina é contraindicada para pacientes em tratamento de câncer, pessoas com imunossupressão e pessoas com reação alérgica grave à proteína do ovo. A vacinação contra febre amarela impede a doação de sangue por um período de quatro semanas”. “Há contraindicação para a vacinação em gestante. Não sendo indicada a vacina para gestantes, quem está tentando engravidar já pode estar grávida e, assim, não pode tomar a vacina nesse período”. A contraindicação absoluta em crianças abaixo de seis meses e adultos acima de 65 anos, não é consenso entre especialistas e na literatura. (nota do autor)

Estamos tendo casos de febre amarela urbana no Brasil? Qual a diferença com a forma silvestre?

“A diferente classificação de febre amarela urbana e silvestre diz respeito ao ambiente ou contexto onde a transmissão ocorre. Na febre amarela silvestre, os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes transmitem o vírus e tem os macacos como os principais hospedeiros. A contaminação de seres humanos ocorre quando uma pessoa não vacinada é picada por um mosquito contaminado pelo vírus. Na febre amarela urbana, o vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti ao homem. Especialistas reforçam que o vírus nunca é transmitido de ser humano para ser humano”.

Estamos tendo surto de febre amarela urbana no Brasil?

“Desde 2000 o país teve pelo menos três surtos de febre amarela silvestre em que a doença alcançou áreas das regiões Sudeste e Sul que não registravam casos há décadas. Estes episódios, relacionados a uma distribuição espacial ampliada, ocorreram após uma mudança no padrão de entrada e de espalhamento do vírus no território brasileiro. É importante informar que a febre amarela é transmitida por meio de vetor (mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes no ambiente silvestre). O último caso de febre amarela urbana foi registrado no Brasil em 1942, e todos os casos confirmados desde então decorrem do ciclo silvestre de transmissão’.

Como foi a febre amarela em 2017 no Brasil?

“Em relação ao surto que ocorreu no primeiro semestre de 2017, entre dezembro de 2016 e junho de 2017 foram confirmados 777 casos e 261 óbitos por febre amarela, o que representou a maior transmissão da doença das últimas décadas. A Região Sudeste concentrou a grande maioria das notificações, com 764 casos confirmados, seguida das regiões Norte (dez casos confirmados) e Centro-Oeste (três casos). As regiões Sul e Nordeste não tiveram confirmações. A vacinação para febre amarela é ofertada na rotina dos municípios com recomendação de vacinação nos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bahia, Maranhão, Piauí, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina e no Distrito Federal”.

Como será a campanha de imunização em 2018?

“Entre fevereiro e março deste ano, 75 municípios dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia irão realizar campanha de vacinação com doses fracionadas e padrão contra a febre amarela. A iniciativa é do Ministério da Saúde em conjunto com os três estados e municípios e tem caráter excepcional. O objetivo é evitar a expansão do vírus para áreas próximas de onde há circulação atualmente. No total, 19,7 milhões de pessoas destes municípios nos três estados deverão ser vacinadas na campanha, sendo 15 milhões com a dose fracionada e outras 4,7 milhões com a dose padrão. A adoção do fracionamento das vacinas é uma medida preventiva que será implementada em áreas selecionadas, durante período determinado de 15 dias, pelos estados para evitar a circulação e expansão da doença”.

“A estratégia de fracionamento da vacina é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) quando há aumento de epizootias e casos de febre amarela silvestre de forma intensa, com risco de expansão da doença em cidades com elevado índice populacional e que não tinham recomendação para vacinação anteriormente. O fracionamento da vacina da febre amarela é seguro, pois a mesma vacina é utilizada, só que em dose menor. A única diferença está no volume. A dose padrão é de 0,5 Ml, enquanto a dose fracionada é de 0,1 Ml e protege por oito anos, segundo os últimos estudos realizados pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Biomanguinhos/Fiocruz)”.

“No estado de São Paulo, 4,9 milhões de pessoas receberão a dose fracionada e 1,4 milhão a dose padrão em 52 municípios. Já no Rio de Janeiro, 2,4 milhões de pessoas deverão receber a dose fracionada e 7,7 milhões a padrão em 15 municípios. Por fim, na Bahia, 2,5 milhões de pessoas serão vacinadas com a dose fracionada e 813 mil com a dose padrão em oito municípios. O período da campanha em São Paulo será de 3 a 24 de fevereiro, sendo os dias 03 e 24 (sábados) os dias D de mobilização da campanha. Já no Rio de Janeiro e Bahia, devido ao período do carnaval, as campanhas ocorrerão do dia 19 de fevereiro a 09 de março, sendo o dia 24/2 o dia D de mobilização”.

 

Fontes:

Portal da FIOCRUZ: https://agencia.fiocruz.br/febre-amarela

Portal do Ministério da Saúde: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/febreamarela/index.php

Thomas SJ et al. Flaviviruses. In: Bennett JE, Dolin R, Blaser MJ. Principles and practice of infectious disease. Philadelphia, Elsevier, 1891-1903, 2015.

Compilado e comentado por: Antonio Tadeu Fernandes