Quando é preconizada a utilização de luvas nos cuidados de um paciente, é recomendado sua troca na mudança de sítio manipulado. Habitualmente, este procedimento é feito sem a realização de higiene das mãos. Os autores realizaram um levantamento bibliográfico de estudos que sugerem a manutenção das luvas com sua desinfecção entre estes sítios manipulados.

As luvas são recomendadas principalmente se o profissional de saúde tiver contato com sangue e demais fluídos corpóreos, com mucosas e soluções de continuidade da pele e no atendimento a pacientes sob precauções de contato. A utilização inadequada de luvas refere-se principalmente a sua utilização sem indicação ou manutenção entre procedimentos ou pacientes, podendo ser fonte de contaminação cruzada. Esta prática parece ser frequente nas instituições de saúde, chegando a 74,3% em estudo feito na Malásia. Nestes casos, além de não se realizar a higiene das mãos, as luvas podem ser vetores para contaminação cruzada.

Apesar da ênfase na remoção das luvas após cada procedimento de risco, há inúmeras situações nas quais os profissionais de saúde mantém as luvas entre estas ações. Por exemplo, os anestesistas frequentemente utilizam o mesmo par de luvas durante toda cirurgia e pode ocorre contaminação entre tecidos manipulados, equipamentos anestésicos e teclados de computadores. No atendimento de urgências, pesquisa realizada na Austrália, comprovou que 57,8% dos profissionais só trocam as luvas ao final do atendimento de um paciente, independente dos tecidos ou equipamentos manipulados.

A desinfecção de luvas foi proposta pela primeira vez em 1899 por Kocher, posteriormente substituída por luvas estéreis em procedimentos cirúrgicos. Recentemente, outro artigo observou que na inserção de cateter venoso central, as luvas podem ser contaminadas por microrganismos da pele em 55% dos casos (contato com pele sem antissepsia) e recomendaram a aplicação de clorexidina alcoólica nas luvas imediatamente antes da inserção dos cateteres. Durante a epidemia de Ebola na África Ocidental foi padronizada a desinfecção das luvas depois que várias enfermeiras se contaminaram durante sua atividade. A própria Organização mundial de Saúde sugere que uma luva possa ser descontaminada até oito vezes.

Os autores realizaram uma revisão sistemática de literatura no PUBMED e Crochrane com a finalidade de avaliar: o risco de contaminação cruzada pelas luvas para as atividades subsequentes; a conformidade com a higiene das mãos durante o uso continuado das luvas; a eficácia da desinfecção das luvas; manutenção da integridade das luvas; impacto da desinfecção de mãos enluvadas na ocorrência de infecção hospitalar.

Guias internacionais relatam a possibilidade de contaminação das luvas, recomendando sua troca ao manipular diferentes sítios no mesmo paciente. Entretanto vários estudos relatam que esta prática não é habitualmente realizada em vários cenários assistenciais, mesmo após manipulação de tecidos contaminados ou até infectados.

Também existem recomendações para higiene das mãos entre alguns procedimentos realizados no mesmo pacientes, devendo para tanto as luvas serem removidas. Um hospital indicou o uso universal de luvas por atendimento de todos os pacientes em UTI. Isto implicou numa redução da prática de higiene das mãos e num aumento na incidência das principais infecções relacionadas a procedimentos invasivos. Outro estudo comprovou a correlação entre manutenção de luvas e baixa aderência a higiene das mãos. Além disso, muitos profissionais de saúde acreditam que o uso de luvas pode substituir a higiene das mãos.

Vários guias internacionais, por exemplo na Alemanha, já preconizam que, em situações de emergência ou carga de trabalho excessiva, as luvas podem ser descontaminadas ao invés de substituídas. A eficácia da desinfecção das luvas foi comprovada pela primeira vez em 1933. Estudos recentes confirmam a descontaminação após contaminação experimental com E.coli, Pseudomonas e o vírus da poliomielite. Até esporos do Clostridium difficile podem ser eliminados se associar um derivado clorado ao álcool. Segundo os autores, a descontaminação das mãos enluvadas é tão eficaz quanto das mãos sem luvas.

Vários testes foram realizados para avaliar a resistência das luvas a esta desinfecção. A taxa de perfuração das luvas após a desinfecção foi avaliada em três estudos, desinfetando de 5 a 10 vezes luvas de vários materiais, utilizando várias técnicas. A taxa de perfuração foi baixa (1,5% a 2,1%) e pode estar relacionada com a atividade desenvolvida. A queda da resistência a tração e alongamento foi maior com luvas de nitrilo (26%) comparada com luvas de látex (4,6%) após seis desinfecções com etanol.  A permeabilidade é afetada a exposições prolongadas ao álcool, mas não na duração habitual da desinfecção. Ainda não está comprovado se a exposição repetida altera esta característica das luvas. Estudos com exposição prolongada parecem determinar que as luvas de nitrilo são mais resistentes a estas alterações que as de látex. A implicação da alteração da permeabilidade ainda não está determinada nem para os pacientes nem para os profissionais de saúde.

Finalmente, em relação ao impacto desta nova prática nos índices de infecção tivemos um estudo numa UTI Neonatal com RN≤1.500gr. Foram comparados dois períodos de 3 anos, um com a técnica convencional e outros introduzida a desinfecção de luvas entre as atividades no mesmo paciente. Todas as demais variáveis estudadas foram equivalentes nos dois períodos e foi observada no segundo período uma redução significativa da densidade de incidência de IH (13,50‰ x 4,8‰) e na ocorrência de enterite necrotizante (3,00‰ X 0,80‰).

Segundo os autores, esta revisão bibliográfica não encontrou evidências que a desinfecção das luvas seja insegura para o paciente ou sua integridade como barreira e eles recomendam essa prática em situações específicas. Sugerem também que essa abordagem seja precedida por treinamento e um período de teste para se avaliar a aceitação dessa nova prática. O treinamento deve incluir: indicação para calçar e retirar as luvas; enfatizar que as luvas não podem ser compartilhadas entre pacientes distintos; que 3 dos 5 momentos para higiene das mãos podem ser substituídos por esta nova abordagem (antes de procedimentos assépticos; após exposição a fluídos corpóreos; após contato com cercanias do paciente); necessidade de trocar as luvas se estiverem visivelmente sujas ou perfuradas; necessidade de retirar as luvas e realizar a higienização das mãos após conclusão das atividades com o paciente; limitar o número de desinfecções a no máximo 10 vezes.

Os autores também enfatizam a necessidade de novos estudos melhor desenhados para ampliar as evidências científicas desta nova técnica proposta, assim como para avaliar a sua aceitação pela equipe de saúde. Na conclusão afirmam que esta nova estratégia poderá ser útil principalmente em situações que os profissionais falham em seguir as recomendações oficiais sobre higiene das mãos ou uso de luvas, principalmente entre as múltiplas atividades com o mesmo paciente.

 

Resenha por: Antonio Tadeu Fernandes

Fonte: Kampf  G, Lemmen S. Disinfection of gloved hands for multiple activities with indicated glove use on the same patient. Journal of Hospital Infection. Vol 97 (2017), pags. 3 a 10.