As infecções primárias da corrente sanguínea (IPCS) são complicações frequentes e de grande impacto em pacientes recebendo nutrição parenteral total (NPT) por tempo prolongado. Os autores estudaram o impacto do emprego de selo profilático com etanol em cateteres tunelizados compatíveis com este germicida (silicone). O álcool apresenta maior espectro, incluindo multi-R e fungos, e menos efeitos colaterais, quando comparado com os antibióticos habitualmente empregados com esta finalidade, porém é incompatível para uso como selo em cateteres de poliuretano.

Foi realizada um coorte retrospectiva, comparando a ocorrência de IPCS, antes e após a implantação do selo com álcool (antes era com antibióticos) em um hospital universitário de Miami de 1.550 leitos, avaliando por prontuário de pacientes internados com NPT em cateteres tunelizados, entre abril de 2.009 e abril de 2015. O protocolo com etanol foi implantado em abril de 2012 e constituía na aplicação do selo com etanol 70% por pelo menos 4 horas, 3 vezes por semana em cateteres tunelizados compatíveis de pacientes recebendo NPT. A infecção primária da corrente sanguínea foi diagnosticada a partir de hemoculturas positivas a partir de 48 horas de internação, excluídos outros focos para esta infecção.

Foram estudados 9 pacientes no período anterior, 11 no pós protocolo e 4 pacientes participaram dos dois períodos. Foram avaliados 3.052 cateteres dia no perído pré x 5.435 no período pós. Os resultados significantes foram: densidade de IPCS álcool 2,4‰ X densidade de IPCS 12,7‰ (p=0,004), com uma redução de 81% no risco relativo desta complicação. Esses valores se repetiram com remoção de cateter e bacteremia. A hospitalização dos pacientes também foi significativamente menor no período pós implantação: mediana 23 dias x mediana 289 dias (p=0,005).

Segundo os autores, sempre a mesma equipe prestou assistência nos dois períodos e não teve casos de diabetes ou recebendo drogas imunossupressoras nos pacientes avaliados nos dois períodos. Este estudo verificou o impacto do selo com álcool reduzindo IPCS, bacteremia, remoção de cateteres e duração da internação, justificando seu emprego. Eles relatam como fator limitante o pequeno número de pacientes estudados e o fato de ser um abordagem retrospectiva. Os autores não relatam conflitos de interesse.

Na minha opinião, além da limitação do número pequeno de pacientes avaliados, não uma comparação da presença de fatores de risco que possam causar viés de confundimento na interpretação dos dados e além disso a alteração de outras práticas profiláticas (por exemplo: adesão a higiene das mãos ou implantação de Bundles) podem também afetar o resultado causando mais viés de confundimento e isto pode ocorrer em estudos que avaliam períodos distintos de atendimento. Também a grande diferença na duração da hospitalização pode ser resultado do novo protocolo, mas também fator de risco que foi significativamente diferente nos dois períodos provocando mais confundimento. O estudo não deixa claro como esse impacto foi avaliado. Finalmente, acredito que estudos melhor desenhados, por exemplo ensaios clínicos, devem ser realizados para dar melhor evidência científica para a adoção dessa prática.

 

Fonte: Worley MV et al. Role of Ethanol Locks in Reducing Bloodstream Infections in Adults on Parenteral Nutrition. Infection control & hospital epidemiology september 2017, vol. 38, no. 9 pags: 1133-1134.

 


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