O grande desafio dos controladores de infecção continua sendo como incorporar as evidências científicas às atividades dos profissionais de saúde e neste sentido a compreensão do contexto em que se dá o processo assistencial é essencial. A complexidade das interações entre os vários profissionais de saúde, diferentes turnos de trabalho e os próprios pacientes, torna bastante complexo e particularizado o contexto em que se dá essa interação, durante a assistência à saúde. Assim, vem crescendo nos últimos anos o emprego de pesquisas qualitativas para estudos comportamentais relacionados às práticas de prevenção e controle de infecção.

A etnografia é um método bastante empregado pela antropologia social, que se baseia no contato prolongado entre o pesquisador e o grupo que está sendo estudado, que assim vivencia os hábitos e cultura dos investigados, procurando compreender suas atitudes e significados atribuídos dentro de seu contexto operacional. Nesses estudos, o pesquisador se insere num grupo para ganhar sua confiança e proporcionar uma rica descrição dos eventos diários. Entrevistas semiestruturadas e a observação participante são os métodos empregados com maior frequência, onde o pesquisador interroga ou vivencia como e porque as pessoas realizam suas atividades e como se relacionam entre si, buscando interpretar os significados de suas ações e a cultura compartilhada, que influencia diretamente suas atitudes diárias habituais. Mais recentemente, uma técnica bastante utilizada é o emprego do vídeo reflexivo, onde profissionais de saúde e até pacientes são filmados e depois eles avaliavam o processo assistencial.

Os autores fizeram uma revisão bibliográfica em várias bases de dados (Pubmed, Google Scholar, Cochrane, entre outras) de estudos etnográficos aplicados às práticas de prevenção e controle de infecção com publicações entre 2012 e 2017, sendo encontrados 12 artigos. A etnografia foi empregada principalmente para o estudo de: variações na comunicação de dados; identificação de barreiras à aderência às práticas recomendadas; exploração das diferentes percepções das práticas de isolamento; influência do design físico sobre as práticas de prevenção.

Dentre as principais conclusões desta revisão podemos destacar: os indicadores epidemiológicos obtidos não refletem só o risco infeccioso, mas também a motivação e efetividade da equipe na coleta e utilização destas informações para aprimoramento das práticas assistenciais; a importância de se entender o contexto em que a assistência é executada para melhorar a aderência às recomendações; resistência da equipe de saúde em acreditar que os indicadores obtidos reflitam a realidade, afetando a credibilidade do controle de infecção e da comparação interinstitucional; necessidade dos profissionais de saúde receberem feedback de pacientes e familiares sobre as práticas de prevenção de infecção; pacientes entendem a importância da prevenção da contaminação cruzada para outros pacientes e até seus visitantes, mas querem entender melhor o que devem e o que não devem fazer, inclusive em relação aos seus pertences; embora o acesso aos itens utilizados para prevenção de contaminação reforce a importância do arranjo do ambiente de trabalho, a falta de pessoal, sobrecarga ou superlotação têm uma importância maior na não aderência às práticas de prevenção; a filmagem e posterior avaliação crítica pelo profissional ou paciente ou ambos do processo assistencial parece ser uma ferramenta educativa mais eficaz que aulas convencionais ou indicadores de processo, ajudando a desenvolver a autoconsciência de ações preventivas e do papel de cada participante na prevenção de infecções; importância da avaliação do fluxo de trabalho com ênfase nas interrupções e barreiras que o atrapalham.

Os autores concluem que as pesquisas etnográficas são uma importante estratégia emergente para a prevenção e o controle das infecções. Destacam o papel dos vídeos reflexivos (gravação em vídeo e posterior reprodução para avaliação crítica de quem prestou ou recebeu assistência) para desenvolvimento de autoconsciência e assim mudança de hábitos, envolvendo o profissional de saúde nas práticas de prevenção e controle de infecções, favorecendo novas habilidades, caracterizando importantes mudanças comportamentais, que são o maior desafio dos controladores de infecção.

 

Fonte: Knobloch M J et col. Implementation in the midst of complexity: Using ethnography to study health care–associated infection prevention and control. American Journal of Infection Control 45 (2017) 1058-63.

Sinopse por: Antonio Tadeu Fernandes.