Em 2008 foi identificado nos hospitais de Ontário, Canadá, um aumento de infecção pelo Clostridium difficile e para o controle deste surto foi criada uma comissão pela saúde pública, com a finalidade de realizar uma investigação epidemiológica e propor medidas de prevenção e controle. Este artigo apresenta as principais recomendações dos primeiros cindo anos de atividade dessa equipe especializada.

O processo envolve a coleta de informações detalhadas sobre o surto, incluindo tendências epidemiológicas e medidas de controlo aplicadas até à prévia à visita no local. O comitê é liderado por pelo menos 1 médico e inclui controlador es de infecção e um epidemiologista com experiência em gerenciamento de surto. Entre 2008 e 2012, foram realizadas 22  visitas em 19 instituições.

As principais recomendações envolveram os seguintes aspectos: higiene ambiental, gestão de antimicrobianos, programa de controle de infecção para equipe de saúde, identificação e isolamento dos casos e higiene das mãos.

Em 59% dos casos foram identificadas falhas no processo de limpeza e desinfecção dos equipamentos utilizados na assistência ao paciente, principalmente relacionadas a não identificação de quem seria o responsável por esta ação. Em 36% dos hospitais havia deficiência de pessoal para realizar adequadamente esta atividade. Durante os surtos, muitos hospitais deslocavam funcionários para as áreas envolvidas, a custo dos setores de onde eram originários os funcionários. O impacto do fluxo de pacientes nos serviços de higiene ambiental também foi raramente considerado.

Programas abrangentes para gestão de antimicrobianos são importantes para a prevenção de infecções por C. difficille, porém em 73% dos relatórios epidemiológicos foram identificados problemas na sua execução. Os principais problemas foram: fase inicial de implantação, não ter médico ou farmacêutico dedicados ao programa e recursos financeiros insuficientes para sua implantação.

64% dos hospitais não tinham pessoal mínimo dedicado ao controle de infecção. Faltava um gestor para o programa e falhas na integração principalmente com higiene ambiental, saúde ocupacional e CME. Não havia infectologista em 41% dos casos, principalmente nos hospitais de pequeno porte. Mesmo quando havia quadro adequado, era comum o desvio de atribuições dos controladores de infecção, principalmente auditoria da higiene ambiental e prescrição de pacientes infectados. O objetivo do programa de IPC deve ser o de educar os prestadores de cuidados de saúde, de lhes dar o conhecimento e as ferramentas para assumir suas ações, garantindo as melhores práticas de prevenção de infecções, em vez dos controladores assumirem outras responsabilidades não relacionadas ao controle de infecções.

A indicação de precauções adequadas nas suspeitas de infecção por C. difficille não foram implementadas em 32% das instituições. Geralmente ela é implementada só após a confirmação laboratorial. Transporte desnecessário de pacientes foi identificado em 41% das instituições, o que gera carga de trabalho adicional para o serviço de higiene, problemas de comunicação e dificuldades adicionais para contenção dos surtos, principalmente nas unidades receptoras.

Embora o Canadá tenha implantado um programa nacional para divulgar a importância da higiene das mãos, destacando a disponibilização de álcool gel próximo ao atendimento dos pacientes, mas foram identificadas falhas em 36% das instituições, quanto a este tópico. Os resultados da auditoria sobre higiene das mãos não eram difundidos adequadamente para os funcionários envolvidos em 45% das instituições, geralmente só divulgados para os gestores da unidades e não para os profissionais que prestam assistência direta com pacientes. Havia também muita relutância em fornecer feedback para os profissionais durante o processo de auditoria.

Como resultados das auditorias realizadas nessas visitas foram elaboradas 263 recomendações em 14 hospitais que aceitaram fazer um acompanhamento das medidas pelo comitê municipal. Foram atendidas 152 (58%) dessas recomendações. Entender e ultrapassar essas barreiras é um objetivo da saúde coletiva de Ontário, para aprimorar seus resultados para a sociedade.

Na opinião do autor desta resenha este trabalho foi muito bem elaborado e descreve um esforço de uma coletividade para prevenção e controle de uma doença emergente em serviços de saúde. Certamente os problemas levantados se repetem em nossas instituições, muitas  das quais fazendo poucas medidas para identificar e controlar esta epidemia. Este artigo mostra também consequências de uma instituição não ter um programa de controle de infecção implantado e gerenciado adequadamente.

Resenha realizada por: Antonio Tadeu Fernandes

Fonte: Isabelle Guerreiro, Camille Achonu, Liz McCreight, Jennifer Robertson. Using expert process to combat Clostridium difficile infections.  AJIC Volume 44, Issue 12, Pages 1451–1453, 2016.