Os autores realizaram entrevistas semiestruturadas para avaliar a percepção e a motivação para prevenção de infecções entre profissionais de saúde em um hospital universitário americano.  A maioria das infecções pode ser prevenida com medidas amplamente divulgadas, como: higiene das mãos; eliminação do uso desnecessário de dispositivos invasivos; cuidados para inserção e manutenção desses dispositivos; atenção às medidas de precaução e uso adequado dos equipamentos de proteção. Entretanto, a adesão a essas medidas raramente é sustentada, necessitando de intervenções comportamentais complexas e o enfrentamento de barreiras, que incluem até mudanças na cultura organizacional.  Embora a motivação dos profissionais de saúde seja essencial nessas alterações comportamentais, poucos estudos se dedicam a esse tema. Assim, os autores realizaram uma pesquisa qualitativa para melhor compreenderem esta questão chave para o sucesso das medidas preventivas.

Participaram, sendo entrevistados isoladamente, 10 profissionais de saúde (médicos ou enfermeiros com participação direta ou indireta no processo assistencial) para avaliar sua percepção e motivação das medidas de prevenção das infecções, levando em consideração também a estrutura e organização da instituição e aspectos inerentes à execução das ações profiláticas propostas. Eles foram recrutados por e-mail até o critério de saturação do tema. O estudo foi realizado em um hospital de 592 leitos com Bundles específicos para infecção da corrente sanguínea, infecção do trato urinário e infecção por Clostridium difficile.  Os autores optaram por entrevista semiestruturada ao invés de grupo focal, pois neste poderia haver maior constrangimento dos participantes em expor seus pontos de vista, entre outros motivos.

O impacto das medidas na segurança do paciente e os melhores resultados alcançados foram os principais fatores de motivação identificados. Também tiveram papel importante: comprometimento das lideranças, ambiente facilitador do trabalho em equipe, feedbacks (para a equipe e individuais) e estratégias educativas (treinamentos e reciclagem de conhecimentos). Neste trabalho, a presença de protocolos e estratégias de premiação ou punição não foram percebidos como fatores de motivação.

Segundo os autores, este estudo apresenta algumas limitações: problemas na capacidade de generalização inerente aos estudos qualitativos, por se concentrarem em cenários específicos; diversidade de perspectivas profissionais estudadas; ter se limitado a auto relatos não confrontados com seus reflexos nas ações profiláticas; a motivação pode ser diferente dependendo da função assistencial ou gerencial; a amostra não foi estratificada por atividade profissional.

O autor desta sinopse destaca que neste exemplar da AJIC os principais estudos foram pesquisas qualitativas. Parece que isso pode estar refletindo uma valorização, pelos controladores de infecção, da importância de pesquisas qualitativas para compreenderem o comportamento dos profissionais de saúde em relação às práticas de prevenção das infecções hospitalares. Desde a primeira turma de nosso curso em 2.003 temos um módulo para debater profundamente esse tema. A minha dissertação, realizada há 10 anos, foi para discutir a percepção dos profissionais de saúde em relação às infecções hospitalares e suas práticas de prevenção e controle. Sinceramente, eu esperava uma maior repercussão nos eventos científicos nacionais dessas abordagens qualitativas, sendo que na época a comissão científica do congresso não avaliou adequadamente, considerando amostra insuficiente para conclusões, demonstrando um desconhecimento dos métodos de pesquisa qualitativa, principalmente o conceito de saturação do tema. Espero que agora, quando este modelo de pesquisa começa a pontuar nas mais conceituadas publicações científicas internacionais, nos próximos eventos científicos nacionais seja dado mais espaço e não se cometam equívocos ao se analisar pesquisas qualitativas que se propõe a dar subsídios para a principal resistência que os controladores de infecção enfrentam, que á a resistência humana às mudanças comportamentais. A partir dessa época, nas atividades do curso, estamos aprofundando esse tema com nossos alunos, que saem na frente, até em termos internacionais, no enfrentamento do principal desafio dos controladores de infecção. Assim, hoje eu faria uma dissertação muito mais completa, mas mesmo assim vale uma leitura para reflexão dos conceitos lá expostos.

A minha dissertação pode ser acessada a partir destes links:

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5137/tde-29012009-135158/pt-br.php

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5137/tde-29012009-135158/publico/antoniotadeufernandes.pdf

 

Fonte: McClung L. et cols. Health care worker perspectives of their motivation to reduce healthcare–associated infections. American Journal of Infection Control 45 (2017) 1064-8.

Sinopse por: Antonio Tadeu Fernandes.