Se por um lado vem se destacando o papel das superfícies hospitalares na contaminação cruzada, a maioria dos desinfetantes existentes promovem uma redução apenas temporária da carga microbiana, não comprovando ação residual, o que pode ter impacto nesse contágio.  Os autores realizaram um estudo duplo-cego para estudar a ação residual de produtos à base de organosilano (Goldshield 75®), em aplicações mensais, comparando com placebo, em UTI de hospital que utiliza derivados do cloro como desinfetante habitual.

Organosilanos são uma nova classe de substâncias químicas, a base de silício, com propriedades antimicrobianas, que formam uma película em vários materiais, com inúmeras aplicações práticas, mantendo sua ação por tempo prolongado. Seu mecanismo de ação não é sobre o metabolismo microbiano, dificultando a ocorrência de resistência. Ele produz uma forte carga elétrica positiva, que promove a ruptura da parede celular dos microrganismos, apresentando ação contra bactérias, fungos e algas.

Foi realizado um estudo prospectivo, duplo-cego, randomizado e controlado, por 5 meses sucessivos, onde todos os leitos e entorno tinham desinfecção concorrente diária com derivados do cloro e num braço do estudo foram realizadas aplicações mensais de um organosilano e no outro um placebo. Culturas ambientais pré, pós aplicação e semanais foram realizadas para avaliar a eficácia e persistência da ação antimicrobiana. Foi obtido um total de 1382 amostras, 702 do grupo intervenção e 680 do grupo controle. Não houve diferenças significativas entre os grupos em relação a ocupação dos leitos e indicação de isolamento. Segundo os autores, foi observada uma redução na carga microbiana total (intervenção: 46,7% X controle: 30,8% p=0,2) e na contaminação por estafilococos principalmente no grupo de intervenção (65,9% x 35,1% p=0,02), com diferença significativa comparando ao grupo controle em relação ao estafilococo.

Os autores colocam como fatores limitantes do estudo não terem feito a correlação desses achados com a incidência de infecções por esses agentes. Infelizmente, os autores não mostraram os resultados das culturas pareados por semanas após a aplicação, para um melhor detalhamento da ação residual em ambos os grupos, o que limita as implicações práticas desses achados, na minha opinião. Também não é citado no artigo se existe ou não conflito de interesse.

 

Fonte: Fitton K et als. Long-acting water-stable organosilane agent and its sustained effect on reducing microbial load in an intensive care unit. American Journal of Infection Control 45 (2017) 1214-7.

Fontes sobre organosilanos: http://www.gelest.com/wp-content/uploads/Biosafe.pdf e http://goldshieldindustriesinc.com/

Sinopse por: Antonio Tadeu Fernandes