O Hospital da Fundação Kaiser, Fontana, Califórnia, é uma exceção, pois lá os médicos lavam mais as mãos que a enfermagem. Este texto além de documentar o fato, explica como este surpreendente resultado foi conseguido e como vem se mantendo por dois anos consecutivos. Salemi e equipe realizaram um estudo observacional por cinco períodos distintos, em duas UTIs de sua instituição, uma geral de 18 leitos e outra cardíaca de 12 leitos. Existem seis pias nestas unidades, com sabonete comum ou anti-séptico e loção para as mãos. Não foram introduzidas soluções alcoólicas para anti-sepsia das mãos. Não houve alterações importantes da relação enfermeiro leito.

A lavagem das mãos é indicada após qualquer contado direto com o paciente e nos casos com precauções de contato, também após com objetos inanimados localizados próximos ao paciente. No primeiro período observacional (abril 98), os médicos lavaram suas mãos em 19% das oportunidades, ao passo que as enfermeiras em 73% das vezes. Em maio de 1998, o infectologista do controle de infecção realizou entrevista com cada um dos 71 médicos que atendiam nas UTIs, enfatizando a importância da lavagem das mãos e mostrando a baixa aderência dos médicos, quando comparados com a enfermagem. Em outubro 1998, um novo estudo observacional revelou ainda maior aderência da enfermagem (90%). Porém os médicos apresentaram um resultado significativamente melhor (85%), que no período anterior. A partir de então foi incluído na palestra anual de prevenção de acidentes, o tema da lavagem das mãos. Estas palestras foram gravadas e enviadas aos médicos que não compareceram, acompanhadas de um questionário para reforçar os principais conceitos. Entrevistas posteriores foram realizadas para se avaliar a aceitação a esta abordagem. Em três dos dois períodos subsequentes de observação a aderência dos médicos superou a enfermagem, de acordo com os seguintes dados: maio 99 (médicos 76% X enfermagem 71%); novembro 99 (médicos 74% X enfermagem 84%) e setembro 2000 (médicos 68% X enfermagem 58%).

A partir da segunda entrevista os médicos avaliaram o que mais influenciou sua mudança de comportamento. O principal ponto foi saber que a lavagem das mãos previne doenças, logo seguido pela informação de que as enfermeiras são mais eficientes que eles nesta medida de controle. Também ao avaliar quem mais influenciou suas mudanças afirmaram que foi o médico do controle de infecção, seguido pelos integrantes da CCIH e em último lugar a enfermeira da CCIH. Paralelamente á melhor aderência a lavagem das mãos, pela metodologia NNIS foi detectada importante redução na densidade de infecção da corrente sanguínea relacionada ao acesso vascular (3,0 para 1,4 por mil procedimentos dia). Isto não se repetiu com a incidência de pneumonia.

De acordo com os autores, ao contrário de muitos estudos anteriores, este demonstrou sucesso quando se elabora uma estratégia que integram pesquisa, atividades educativas e administrativas. Mudança de comportamento é um processo complexo e programas eficazes devem incluir informação, motivação e reforço para manter a mudança de hábitos. Neste estudo, as 126 entrevistas com os médicos tiveram um resultado que superou as aulas tradicionais e mesmo o envio de E-mails. O reconhecimento da importância de médicos passarem informações para médicos, a liderança que o médico responsável pelo controle de infecção deve exercer sobre os demais colegas, o uso de dados locais e o reforço da responsabilidade do médico para com a saúde dos pacientes, foram as ações que mais tiveram impacto.

 

Fonte: Salemi C, Canola MT, Eck EK. Hand washing and physicians: How to get them together. Infect Control Hosp Epidemiol. (2.002) 23 (1): 32-35.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2003.


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