Os vírus da hepatite B (HBV) e da hepatite C (HCV) são os patógenos transmitidos pelo sangue mais prevalentes, causam doença grave, debilitante com potencial para induzir cronicidade, cirrose e câncer. Estes vírus afetam de menos de 1,0% da população dos países desenvolvidos até acima de 20,0% em algumas regiões do sudeste asiático. Existem mais de 350 milhões de portadores crônicos do HBV e aproximadamente 170 milhões do HCV. A quimioterapia contra estes vírus é limitada e ainda não temos vacina disponível contra o HCV. O HBV pertence ao gênero Hepadnavirus e o HCV recentemente foi classificado no gênero Hepacivirus, e ambos são dificilmente cultiváveis em laboratório, dificultando a compreensão da sua sobrevivência no meio ambiente.

A transmissão ocorre quase que exclusivamente pela inoculação percutânea ou deposição do vírus em membranas mucosas ou pele lesada. Nos sangue o HBV chega a títulos de 1.000.000.000/ml e o HCV 1.000.000/ml. Estes vírus também podem ser encontrados na saliva e sêmen, com papel na transmissão. Por outro lado, fezes, secreções nasais e urina, não disseminam, a não ser que estejam contaminadas com sangue. Não é conhecida a dose infectante.

Na comunidade, estes vírus são transmitidos principalmente pelo compartilhamento de artigos utilizados para inalação ou injeção de drogas e por contato íntimo, pessoa-a-pessoa. Também tem sido implicada a tatuagem, piercing, acupuntura, elétrolise para remoção de pelos, compartilhamento de barbeadores, escovas de dente e escovas de banho. De 10 a 40% dos casos, a forma de contaminação não é definida. Apesar de opiniões em contrário, não existe evidência para transmissão aérea destes vírus. Em serviços de saúde, são importantes na transmissão à transfusão de sangue ou derivados, acidentes pérfuro-cortantes, procedimentos cirúrgicos e equipamentos médico-hospitalares inadequadamente descontaminados. O papel das mãos da equipe na disseminação destes vírus é difícil de ser determinado. Não existe evidência comprovando a participação do meio ambiente, embora um surto de HBV em laboratório foi relacionado à contaminação ao disquete do computador. Pouco se sabe a respeito da capacidade de sobrevivência destes vírus em superfícies inanimadas. A maioria dos testes identifica partículas virais, sem determinar a sua infecciosidade.

Também se conhece pouco a respeito da inativação do HBV e do HCV pelos germicidas, pois os métodos de teste da atividade viruscida comprometem a qualidade da informação. Além disso, o tempo de contato nestes testes ou a sujidade acrescentados, raramente refletem a prática profissional, principalmente a presença de sangue. Mas o principal problema destes testes relaciona-se à dificuldade da cultura in vitro destes vírus. Os testes iniciais eram feitos por inoculação do HBV em chipanzés, porém dificuldades na disponibilidade destes animais, comprometendo estatisticamente os resultados. Estes testes definiram que formaldeído a 0,7% por uma hora a 20 graus Celsius inativa 99,9% do vírus HBV. A completa inativação ocorre nas seguintes exposições: hipoclorito de sódio a 500 ppm, glutaraldeído a 2%, isopropanol a 70%, derivados fenólicos a 702 ppm e quaternário de amônia de 500 a 703 ppm todos por 10 minutos a 20 graus; glutaraldeído de 0,1 a 1,0% por cinco minutos a 24 graus; etanol a 80% por dois minutos a 11 graus.

O sistema Sterrad, baseado em altas concentrações de vapor de peróxido de hidrogênio e o sistema Steris que utiliza ácido peracético são altamente efetivos. O Virkon a 1% inativa o vírus em 10 minutos, podendo ser uma alternativa devido a sua baixa toxicidade e natureza não irritante. Hidróxido de sódio a 0,1 mol/L inativa o vírus em 30 segundos a 60 graus, porém é altamente corrosivo, o que restringe o seu uso. Existem poucos testes para se determinar a eficácia dos antissépticos.

Novos testes laboratoriais estão sendo desenvolvidos em substituição ao modelo do chipanzé. Baseados no estudo de alterações morfológicas do vírus à microscopia eletrônica ou técnicas para medição de inativação da enzima HBV polimerase. Estes testes apresentam além do alto custo, dificuldades operacionais e resultados falsos e até risco ocupacional. Recentemente vem sendo empregado o vírus da hepatite de patos (DHBV) que apresenta semelhanças com o vírus da hepatite B, podendo ser empregado na avaliação da atividade germicida. Em relação ao HCV, utiliza-se o vírus da diarréia bovina (BVDV).

Os autores desta revisão também avaliaram todas as formas possíveis de transmissão destes vírus e a relevância dos germicidas em seu controle. A disseminação dos vírus HBV e HCV através do parto ou amamentação; inseminação artificial; transplantes; acidentes em atividades esportivas, envolvendo sangue; profissionais de saúde que sofram acidentes pérfuro-cortantes apresentam pequena relevância em relação ao total de casos e os germicidas aparentemente não têm nenhum papel da prevenção da contaminação. A transmissão de sangue contaminado tem alta relevância nos casos e os germicidas podem ser efetivos na inativação do vírus.

A transmissão hospitalar envolvendo artigos contaminados apresenta moderada/baixa relevância. A lavagem das mãos com água e sabão e alternativamente o uso de gel alcoólico, é suficiente para prevenir a transmissão cruzada pelas mãos da equipe. Agentes tópicos podem apresentar um papel na prevenção da contaminação a partir de lesões da pele, porém não há necessidade de antissépticos com ação residual. As superfícies fixas raramente veiculam estes dois vírus, com possível exceção nas unidades de hemodiálises, sendo importante a descontaminação de fluídos infectantes extravasados.

Apresentam alta relevância as seguintes formas de transmissão: compartilhamento de agulhas e seringas no uso ilícito de drogas; utilização de seringas e agulhas contaminadas para administração de injetáveis; emprego de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos contaminados; uso de agulhas ou instrumentais contaminados em procedimentos rituais ou estéticos (circuncisão, tatuagem, piercing, acupuntura, eletrólise e compartilhamento de aparelho de barbear). Na prevenção de todas estas formas de transmissão, os germicidas desempenham papel crucial. A relevância é moderada no compartilhamento de equipamentos utilizados em hemodiálise. Nestes casos a desinfecção química pode reduzir os riscos.

É moderada também a relevância do contato sexual com indivíduos infectados e nestes casos o uso de gel germicida reduz o risco, mas pode causar problemas decorrentes do seu uso constante. Já o contato domiciliar não venéreo ou institucional com portadores apresenta baixa relevância e está relacionadas à aglomeração, más condições de higiene e compartilhamento de brinquedos e itens de uso pessoal, como escova de dente. Nestes casos, os germicidas apresentam apenas papel secundário.

 

Fonte: Sattar AS, Tetro J, Springthorpe VS, Giulivi A. Preventing the spread of hepatitis B and C viruses: where are germicides relavant? Am J Infect Control2001; 29:187-197.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes.