Desde Semmelweis já se sabe que as mãos dos profissionais de saúde são o principal veículo para transmissão de patógenos hospitalares, porém até o momento não tínhamos um estudo captando continuamente os movimentos destes profissionais exercendo suas ações. Os autores realizaram uma observação inovadora ao colocar um capacete com vídeo câmera aliado a software para análise de imagens e acompanhar as atividades de profissionais de saúde por um período contínuo de cerca de 70 minutos. A objetiva conseguia captar imagens das mãos destes profissionais. Foram acompanhados 10 cuidados realizados em três UTIs de um hospital universitário suíço, sendo 8 por enfermeiros e 2 por médicos, num total de 296,5 minutos de observação. Foram identificados como contatos, toque das mãos dos profissionais com qualquer superfície, sendo contabilizados 4.222 episódios neste período (1 cada 4,2 segundos), dos quais 79% com as mãos sem luvas e 21% com luvas.

Foram definidos vários níveis de observação quanto: utilização ou não de luvas; contato com mão dominante ou não dominante; zona do ambiente durante o contato (próximo ao paciente: espaço ocupado pelo paciente e áreas passíveis de serem colonizadas por sua microbiota; zona exterior ao paciente: áreas ocupadas por outros pacientes; áreas não destinadas ao atendimento direto de pacientes); topografia na qual ocorre o contato, sendo considerado crítico o toque em dispositivos invasivos ou superfícies colonizadas do paciente (soluções de continuidade ou lesões da pele; mucosas ou dispositivos invasivos); método e técnica utilizada para higienização das mãos, de acordo com os cinco momentos definidos pela OMS (o momento 1 foi adaptado para incluir o toque em áreas próximas ao paciente). A sequência das atividades observadas foi classificada de acordo com seu risco potencial. Evento de colonização foi definido como o toque no paciente ou seu ambiente, vindo de uma área externa ao mesmo, não tendo contato definido como crítico (contato com dispositivos invasivos ou superfícies colonizadas), sendo este classificado como evento de infecção (momento 2 da OMS).

A mediana da duração da higiene das mãos foi 11 segundos, oscilando entre 2 e 48. Foram observados 291 eventos de colonização (mão direita: 152; mão esquerda: 139). Eventos de infecção foram 217 (mão direita: 114; mão esquerda: 103). Um dado interessante foi que 61% dos eventos de colonização e 2,3% eventos de infecção foram precedidos por contato do profissional de saúde com seu próprio corpo, com destaque para: cabelo ou o restante de sua pele (52%); roupas (38%); face (6%) e EPI (5%). Desses contatos prévios, 3% foi com as mãos já enluvadas. A higiene das mãos foi realizada apenas 5% antes dos eventos de colonização e 1% antes dos eventos de infecção.

Segundo os autores, este estudo identificou uma quantidade surpreendente de risco de contaminação pelas mãos da equipe nessa UTI, mais precisamente 14,2 vezes em média por minuto, ou seja 1 a cada 4,2 segundos. O estudo também identificou as ações de possível maior impacto: entrada no ambiente do paciente e manipulação de dispositivos invasivos ou superfícies colonizáveis, que ocorrem em média a cada 2 minutos. A higiene das mãos foi realizada em média 19,6 vezes por hora, ou seja, a cerca de cada 3 minutos. Logo, não é de surpreender que dure perto de 11 segundos e não o tempo preconizado (20 a 30 segundos), pois o profissional gastaria pelo menos 1/5 de seu tempo realizando esta atividade.

Os autores salientam que, diferentemente das abordagens convencionais, que contam a atividade a ser realizada como uma única oportunidade para higiene das mãos, ao observar a execução da assistência, foram notadas várias possibilidades de contaminação num único procedimento, ampliando assim a necessidade dessa medida profilática, de acordo com a prática profissional e seus riscos para o paciente.  Outro ponto salientado pelos autores foi a possibilidade da contaminação das mãos ter origem no próprio profissional de saúde através de costumes muitas vezes inconscientes, uma vez que sua mente está focada no procedimento com o paciente. Os autores também salientaram as vantagens da câmera no capacete versus câmera fixa no paciente: melhor visão do que o profissional está fazendo; observar o que ele faz fora do ambiente do paciente; profissional age com mais naturalidade do que quando observado por câmeras fixas.

As principais limitações do estudo identificadas pelos autores foram: pequena amostra de profissionais de saúde observados em apenas 3 UTIs  de uma única instituição, comprometendo capacidade de generalização dos achados; as oportunidades para higiene das mãos foram avaliadas a partir dos 5 momentos na OMS, mas o momento 1 foi ampliado em relação à abordagem convencional; os vídeos foram analisados por um único observador, podendo refletir sua subjetividade na interpretação dos 5 momentos.

Concluem os autores que sua pesquisa colocando a câmera no capacete, mostrou pela primeira vez o ambiente real de assistência à saúde como seria observado pelo próprio profissional. O desenvolvimento desse método pode ajudar na implantação e análise das medidas profiláticas e na real importância de fatores humanos comportamentais na transmissão de infecções e de colonização microbiana. Foi também ampliada a observação do comportamento da equipe de saúde e a possibilidade de contaminação de suas mãos, sendo identificado que as mãos são menos higienizadas do que relata a abordagem convencional do tema.

Na opinião do autor desta sinopse, este é mais um artigo que procura valorizar e compreender o papel do comportamento humano na profilaxia das infecções hospitalares. Cada vez mais me convenço que a abordagem convencional das CCIHs sobre higiene das mãos deve sair de sua ineficaz zona de conforto se limitando a aulas, campanhas educativas ou mesmo feedback de indicadores de conformidade e partir para abordagens inovadoras como esta desenvolvida nesta pesquisa. Como discutimos em nosso curso, o aprendizado é facilitado pelo desconforto cognitivo, quando percebemos que nossas ações não estão dando os resultados previstos. O emprego desta câmera no capacete, se associada com a estratégia do vídeo crítico, que discuti em outra sinopse, pode geral o impulso para mudança de hábitos arrigados nos profissionais de saúde.

 

Fonte: Clack et cols. “First-person view” of pathogen transmission and hand hygiene – use of a new head-mounted video capture and coding tool. Antimicrobial Resistance and Infection Control (2017) 6:108-117.

Sinopse por: Antonio Tadeu Fernandes