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Os maiores índices de infecção hospitalar são observados nas unidades de terapia intensiva, afetando a mortalidade, morbidade, duração da hospitalização e os custos hospitalares. Ocorre também um aumento da carga de trabalho da enfermagem, que pode ser causa e consequência das infecções hospitalares, particularmente quando estamos diante de microrganismos multirresistentes. O artigo da equipe de Saulnier compara vários métodos para avaliação da carga de trabalho de enfermagem, quando diante de pacientes com esses microrganismos.

Os pacientes foram divididos em dois grupos, de acordo com a presença ou ausência de colonização/infecção por microrganismos multirresistentes, definidos de acordo com os critérios estabelecidos pelo CDC: Pseudomonas e Acinetobacter resistentes a ceftazidima; S. aureus meticilino resistente; Enterococcus resistente a vancomicina e enterobactérias produtoras de beta-lactamases de espectro estendido. Foram obtidas as seguintes informações de cada caso: dados demográficos, diagnóstico primário, duração da internação na terapia intensiva, gravidade da doença de acordo com o índice SAPS (Simplified Acute Physiology Score) e estimativas da carga de trabalho da enfermagem, de acordo com o escore Omega, sistema PRN e análise funcional dos procedimentos de enfermagem. Foram obtidas amostras para cultura de material das narinas, axila, reto ou fezes, aspirado traqueal e de urina, de todos os pacientes à admissão e a cada semana que permaneciam internados. As infecções hospitalares foram avaliadas pela CCIH e colhido material para identificação etiológica.

O escore Omega classifica as atividades terapêuticas em três categorias: tarefas que são computadas apenas na primeira vez em que são realizadas; tarefas que são consideradas a cada vez que são feitas; e tarefas que são contadas por dia que são realizadas.

Na categoria 1 temos os seguintes procedimentos, com a respectiva pontuação entre parênteses: traqueostomia (6); intubação (6); treinamento para ventilação mecânica domiciliar (6); cateter venoso central (3); linha arterial (3); cateter arterial pulmonar (6); cardioversão ou desfibrilação (3); parada cardíaca (10); infusão de droga vasoativa (6); fibrinólise (10); balão intra-aórtico (10); infusão de hemoderivados (10); lavagem gástrica (1); nutrição parenteral (6); nutrição enteral (3); tamponamento de varizes gástro-esofágicas (3); punção de ascite (10); ponte arteriovenosa (10); cateter urinário (3); cistostomia percutânea (1); tração ortopédica (6); exame neurológico (1); punção lombar (1); monitoramento da pressão intracraniana (3); infusão de drogas sedativas (6); lavagem da cavidade peritonial (3).

Na categoria 2 temos os seguintes procedimentos: hemodiálise (10); circulação extracorpórea (10); plasmaferese (10); broncoscopia (3); endoscopia gastrointestinal (3); ultrassonografia (3); angiografia (10); cintilografia (6); transporte intra-hospitalar (3); preparação para o transporte extra-hospitalar (1); preparação para o transporte ao centro cirúrgico (6).

Na categoria 3 temos os seguintes procedimentos: vigilância contínua na UTI (4); ventilação mecânica (10); hemofiltração contínua (10); reinstalação de nutrição enteral (6); curativo cirúrgico complexo (6); isolamento (10).

O sistema canadense PRN é uma versão simplificada da avaliação da carga de trabalho da equipe de enfermagem para as unidades de terapia intensiva. Os procedimentos são avaliados nas atividades técnicas, onde as ações são cuidadosamente individualizadas, descritas e pontuadas e um ponto corresponde a cinco minutos de trabalho. O tempo para a lavagem das mãos é incluído em cada atividade, itens são computados uma vez ao dia (por exemplo, ventilação mecânica) e outros, a cada vez que são realizados (por exemplo, aspiração traqueal). Existe um software que facilita o cálculo. A carga de trabalho da enfermagem para cada paciente é calculada diariamente e a da unidade, é obtida pela soma dos escores de cada paciente.

A análise funcional dos procedimentos de enfermagem foi realizada a partir da adaptação de um método desenvolvido na indústria para avaliar as falhas e seus efeitos. Inicialmente é realizada uma rigorosa análise funcional de todas as atividades desenvolvidas nos cuidados de enfermagem. Setenta e oito procedimentos foram listados e suas tarefas elementares foram detalhadamente descritas em ordem cronológica, permitindo estimar o seu tempo. Quatro procedimentos específicos relacionados a infecções multirresistentes foram avaliados particularmente: precauções/isolamento; banho no paciente com solução antisséptica (clorexidina); precauções para manipular enxoval, excretas e resíduos; e monitoramento microbiológico.

Durante um período de oito meses na unidade de terapia intensiva, foram admitidos 177 pacientes, dos quais 37 estavam colonizados ou infectados com germes multirresistentes. Não houve diferença significativa em relação a idade e gravidade dos pacientes com ou sem germes multirresistentes. Entretanto, houve significância quando se avaliou a duração da internação, o índice Omega nas categorias 2 e 3 e a pontuação do sistema PRN. Na categoria 1, o índice Omega foi maior nos pacientes colonizados/infectados, mas sem significância estatística. A análise funcional identificou um aumento na carga de trabalho de 230 minutos por dia por paciente colonizado/infectado para a realização das medidas de isolamento/precauções. O banho do paciente com antisséptico adicional à higiene diária padrão, aumentou 15 minutos por procedimento realizado. A manipulação de enxoval, excretas e resíduos dos pacientes colonizados/infectados não representou carga de trabalho adicional e a monitorização microbiológica não foi computada em virtude do protocolo incluir exames semanais de todos os pacientes.

Concluíram os autores que todos os métodos empregados detectaram um aumento na carga de trabalho da enfermagem, criando um ciclo vicioso com maior incidência de infecção hospitalar, repercutindo em estadias, custos e trabalho. Os gerentes hospitalares devem estar atentos a este problema e idealmente adequar o seu quadro, levando-se em consideração que a sobrecarga da enfermagem favorece falhas na realização nas medidas básicas de controle das infecções, aumentando sua ocorrência e consequentemente o seu trabalho, sendo necessário corrigir estas deficiências de pessoal, pois os custos das infecções progressivamente não são repassados aos clientes/financiadores da assistência, causando prejuízo financeiro às instituições.

 

Fonte: Saulnier FF, Hubert H, et al. Assessing excess nurse work load generated by multiresistant nosocomial bacteria in intensive care. Infect Control Hosp Epidemiol, 2001. 22(5):273-278.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2002

 



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