Estudo vai além do óbvio ao avaliar fatores organizacionais e infrestruturais associados às infecções hospitalares. Nem sempre a culpa é só da baixa adesão à higiene das mãos.
As infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), especialmente aquelas causadas por Clostridioides difficile (CDI) e Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), continuam sendo desafios significativos para hospitais em todo o mundo. O recente artigo “Organizational and infrastructural risk factors for health care–associated Clostridioides difficile infections or methicillin-resistant Staphylococcus aureus in hospitals” publicado na revista American Journal of Infection Control, oferece insights importantes sobre fatores organizacionais e infraestruturais que afetam a incidência dessas infecções.
Principal Achado
O estudo identificou que unidades hospitalares mais antigas estão significativamente associadas a taxas mais elevadas de infecção por CDI (RR ajustado: 0,012; IC 95% [0,004, 0,020]). Em relação ao MRSA, destacaram-se como fatores de risco com significância estatística:
- Maior biocarga de MRSA (RR ajustado: 9,008; IC 95% [5,586, 12,429]);
- Uso elevado de leitos nos corredores, refletindo superlotação (RR ajustado: 0,680; IC 95% [0,094, 1,267]);
- Alta taxa de horas extras de enfermagem, indicando possível esgotamento profissional (RR ajustado: 5,018; IC 95% [1,210, 8,826]);
- Baixa taxa de adesão à higiene das mãos (RR ajustado: -0,035; IC 95% [-0,063, -0,008]);
- Porta da sala de suprimentos limpa frequentemente aberta (RR ajustado: -0,283; IC 95% [-0,536, -0,030]).
Importância do Tema
Compreender os fatores organizacionais e infraestruturais permite uma abordagem integrada para prevenir IRAS, reduzindo significativamente morbidade, mortalidade e custos hospitalares associados a CDI e MRSA.
Conhecimento Prévio
Já se sabia que práticas de higiene inadequadas e uso indiscriminado de antimicrobianos aumentam riscos de CDI e MRSA. No entanto, o papel de fatores como idade da unidade hospitalar, superlotação, manter porta da sala de suprimentos aberta e horas extras da equipe ainda não havia sido claramente definido.
Metodologia do Estudo
Trata-se de um estudo observacional retrospectivo realizado em 104 unidades hospitalares da Fraser Health, Canadá, abrangendo o período de abril de 2020 a setembro de 2021. Foi aplicada regressão multivariada para determinar associações significativas entre variáveis organizacionais, infraestruturais e as taxas de CDI e MRSA hospitalares.
Resultados com Significância Estatística
Além dos achados já citados, notou-se que unidades mais antigas apresentaram uma associação significativa com aumento nas taxas de CDI. Já no caso do MRSA, taxas elevadas foram relacionadas à superlotação (leitos nos corredores), sobrecarga profissional (horas extras elevadas da equipe de enfermagem), baixa adesão à higiene das mãos e falta de controle no fechamento das portas da sala de suprimentos limpa.
Conclusões dos Autores
O estudo concluiu que melhorias na infraestrutura hospitalar e gestão organizacional são essenciais para diminuir as taxas de IRAS, recomendando intervenções multidisciplinares e sistêmicas.
Fatores Limitantes e Possíveis Confundidores
O estudo apresenta limitações relacionadas ao desenho transversal, impossibilitando inferências sobre causalidade. Variáveis não analisadas, como práticas regionais específicas e adesão a protocolos não medidos diretamente, também podem ser confundidores potenciais.
Recomendações dos Autores
- Fortalecer práticas de higiene das mãos.
- Reduzir a superlotação hospitalar.
- Diminuir as horas extras para evitar burnout profissional.
- Garantir separação adequada de áreas limpas para reduzir contaminação cruzada.
Comentários Adicionais
Este estudo sublinha a necessidade de investimentos estratégicos em recursos humanos e melhorias físicas hospitalares, com abordagem sistêmica e colaborativa.
Fonte:
WANG, X. et al. Organizational and infrastructural risk factors for health care–associated Clostridioides difficile infections or methicillin-resistant Staphylococcus aureus in hospitals. American Journal of Infection Control, v. 53, p. 93-97, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ajic.2024.08.013.
Artigos Relacionados :
- WANG, X. et al. Risk factors for the transmission of Clostridioides difficile or methicillin-resistant Staphylococcus aureus in acute care. Antimicrobial Stewardship & Healthcare Epidemiology, v. 3, supl. 2, p. S103, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1017/ash.2023.376
- CALFEE, D. P. et al. SHEA/IDSA/APIC Practice Recommendation: Strategies to prevent methicillin-resistant Staphylococcus aureus transmission and infection in acute-care hospitals: 2022 update. Infection Control & Hospital Epidemiology, v. 43, n. 5, p. 499-534, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1086/676534
- Clostridioides difficile – Um desafio emergente: https://www.ccih.med.br/clostridioides-difficile-um-desafio-emergente/
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Sinopse por:
Antonio Tadeu Fernandes:
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