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Qual a justificativa do estudo?

Candida auris é um fungo patogênico emergente, de difícil identificação e muitas vezes multirresistente com capacidade excepcional de persistir em superfícies hospitalares; superfícies estas que podem atuar como fonte potencial de transmissão e levar a surtos com alta taxa de mortalidade em ambiente hospitalar.

Atualmente, protocolos para desinfecção de superfícies com agentes químicos mostraram resultados variáveis. Por conseguinte, são urgentemente necessárias estratégias de desinfecção mais eficazes; estratégias estas que sejam passiveis de serem aplicadas em conjunto com a desinfecção química diariamente nos leitos ocupados por pacientes.

Qual o objetivo do estudo?

O surgimento e detecção de C. auris em vários continentes simultaneamente levou à identificação de 4 linhagens clonais (clados) distintas por meio de sequenciamento de genoma completo (clado I – Sul da Ásia; clado II – Leste Asiático); clado III – Africano; clado IV – Sul Americano). O estudo teve como objetivo investigar a eficácia de desinfecção por luz ultravioleta C (UV-C) para isolados de C. auris pertencentes aos 4 clados distintos.

Estudos recentes já demonstraram que UV-C foi eficiente em reduzir a quantidade de colônias de C. auris, especialmente com tempo de exposição prolongado e maior proximidade a fonte emissora. Este estudo visou avaliar se existem diferenças notáveis na resposta dos diferentes clados à luz UV-C e se a susceptibilidade a esses raios depende da capacidade de agregação.

Qual metodologia foi empregada?

Foram conduzidos testes in vitro de isolados de C. auris – utilizando 106 UFC espalhadas em carreadores de aço (steel carriers) de 20 mm de diâmetro – e expostos à uma fonte de luz UV-C de amplo espectro por 10, 20 e 30 minutos a uma distância de 1,5m.

Foi utilizado um dispositivo de descontaminação de ambientes por meio de UV-C de xenônio pulsado (PX-UVC) em 10 amostras (sendo 5 do clado I, 1 do clado II, 2 do clado III, 2 do clado IV) obtidas do CDC e do FDA Antibiotic Isolate Bank. Para cada patógeno, alíquotas de 10 μL contendo 106 UFC em solução salina tamponada com fosfato (PBS) com 5% de soro fetal bovino foram espalhados em lâminas de aço (steel coupons) de 20 mm de diâmetro e deixados secar ao ar por 30 minutos em uma capela de fluxo laminar.

Um conjunto de três amostras biológicas foi exposto a UV-C por 10, 20 e 30 minutos, respectivamente, a uma distância de 1,5m e de forma perpendicular. Os grupos de controle não foram expostos a UV-C e foram cultivados por último para compensar qualquer dessecação. Para quantificar os organismos viáveis, as lâminas de controle e as tratadas foram submersas em 10 mL de PBS e agitados vigorosamente em vórtice, e diluições em série foram cultivadas em ágar Sabouraud dextrose (SDA) e incubados a 37 ° C por 72 horas. As colônias foram então contadas e as reduções logarítmicas calculadas. Os experimentos foram repetidos 3 vezes (repetições técnicas) para mitigar qualquer variabilidade do protocolo ou das condições climáticas do dia.

A identificação de todos os isolados foi confirmada por MALDI-TOF e a morfologia visualizada por microscopia.

Quais os principais resultados?

Foi observada maior susceptibilidade de C. auris aos UV-C em 8 isolados pertencentes aos clados I, II e IV com o aumento do tempo de exposição aos UV-C.  O intervalo de log kill (0,8-1,19) foi maior para esses isolados em 30 minutos. Já para o clado III, relativamente nenhuma mudança no log kill (0,04-0,35) foi percebida com o aumento do tempo.

A morfologia de todos os isolados foi analisada por microscopia e identificou-se que todas as cepas do clado III formaram agregados; além de uma única cepa do clado I (congruente com outros estudos). As cepas formadoras de agregados mostraram-se mais resistentes a exposição à UV-C.

Quais as conclusões e recomendações finais?

O estudo sugere variabilidade na susceptibilidade a UV-C de isolados de C. auris pertencentes a diferentes clados. São necessários mais estudos para avaliar se um impacto cumulativo da exposição prolongada aos raios UV-C proporciona benefícios adicionais.

Os autores ressaltam 2 fatores que podem ser responsáveis por valores de log kill mais baixo, em relação a outros estudos publicados, utilizando isolados de C. auris em alta concentração: o primeiro foi a utilização de laminas metálicas ao invés de vidro; o segundo foi a provável variação de susceptibilidade dependente da concentração (já que outros estudos fizeram culturas utilizando a mesma quantidade de UFC porém em superfícies de cultura maiores).

Os autores ressaltam a importância da atenção ao método de aplicação da luz pois caso esta não seja realizada de maneira perpendicular a eficácia pode ser reduzida por efeito de empilhamento (stacking effect). Por fim, reportam a limitação do número pequeno de isolados de cada clado.

Que críticas e observações?

O clado IV (previamente identificado na América do Sul) reportado no estudo possui como referência a publicação “Global epidemiology of emerging Candida auris” (Rhodes and Fisher – 2019 – https://doi.org/10.1016/j.mib.2019.05.008 ). Em relação a identificação de C. auris no Brasil em dezembro de 2020, até o presente momento o sequenciamento genômico para identificação da cepa ainda não foi concluído/publicado. A aplicação ambiental de ultravioleta apresenta dificuldades técnicas e riscos para os expostos que atrapalham a validade externa deste estudo.

Fonte: Chatterjee P, et al. (2020). Clade-specific variation in susceptibility of Candida auris to broad-spectrum ultraviolet C light (UV-C). Infection Control & Hospital Epidemiology, 41: 1384–1387

Sinopse por: Maria Julia Ricci

Instagram: @mariajuliaricci_

E-mail: [email protected]



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