Hantavirose: Virologia, Epidemiologia, Fisiopatologia, Diagnóstico, Tratamento e Controle — Uma Revisão para Profissionais de Saúde
Resumo
A hantavirose é uma zoonose viral aguda causada por vírus RNA da ordem Bunyavirales, família Hantaviridae, gênero Orthohantavirus. No Brasil, a doença manifesta-se predominantemente como Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), entidade nosológica de evolução rápida e potencialmente fatal, com taxas de letalidade que variam historicamente entre 39% e 54%. O agente etiológico é transmitido ao ser humano principalmente pela inalação de aerossóis formados a partir de excretas de roedores silvestres da subfamília Sigmodontinae, sendo o vírus Araraquara considerado possivelmente o hantavírus mais virulento do mundo. O diagnóstico precoce, baseado na suspeita clínico-epidemiológica e na confirmação laboratorial por ELISA-IgM e/ou RT-PCR, é determinante para o prognóstico. O tratamento permanece essencialmente de suporte, com ênfase no manejo intensivo da insuficiência respiratória e do choque cardiogênico. Não existe vacina disponível nem antiviral específico com eficácia comprovada para as cepas americanas. Em 2025 e início de 2026, o vírus voltou a ganhar destaque mundial com a confirmação de casos em cruzeiro transatlântico, ressaltando a relevância do tema para a vigilância epidemiológica e o controle de infecção hospitalar. O presente artigo revisa de forma aprofundada os aspectos virológicos, epidemiológicos, fisiopatológicos, clínicos, diagnósticos, terapêuticos e de prevenção da hantavirose, com ênfase na realidade brasileira e nas implicações práticas para profissionais de saúde que atuam no controle de infecção, infectologia, microbiologia e enfermagem hospitalar.
Palavras-chave: Hantavírus; Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus; Orthohantavirus; Zoonoses; Vigilância Epidemiológica; Controle de Infecção Hospitalar; SCPH.
FAQ: Hantavirose – Guia para Profissionais de Saúde e Equipe de Controle de Infecção
1. O que é a hantavirose?
A hantavirose é uma doença zoonótica viral grave, transmitida principalmente por roedores silvestres, que pode evoluir para a Síndrome Pulmonar por Hantavírus (SPH), uma condição com alta taxa de letalidade. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
2. Quais são os principais vetores da hantavirose?
Os principais transmissores do hantavírus são roedores silvestres, como o rato-do-mato ( Oligoryzomys spp. ) e o rato-preto ( Rattus rattus ), dependendo da região geográfica. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
3. Como ocorre a transmissão da hantavirose para humanos?
A principal forma de transmissão é a inalação de aerossóis contendo o vírus, provenientes da urina, fezes e saliva de roedores infectados. Outras formas incluem o contato direto com essas secreções e, raramente, mordidas de roedores. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
4. O hantavírus é transmitido de pessoa para pessoa?
Embora a transmissão de pessoa para pessoa seja extremamente rara e documentada apenas para o vírus Andes, não se pode descartar essa possibilidade. Portanto, as medidas de controle de infecção devem ser rigorosamente seguidas. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
5. Quais são os sintomas iniciais da hantavirose?
Os sintomas iniciais são semelhantes aos da gripe e incluem febre, dores musculares (especialmente nas costas e coxas), calafrios, dor de cabeça, náuseas, vômitos e diarreia. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
6. Como a hantavirose evolui para a Síndrome Pulmonar por Hantavírus (SPH)?
Após a fase inicial, a doença pode progredir rapidamente para a SPH, caracterizada por tosse e dificuldade para respirar (dispneia). Esta fase é marcada por edema pulmonar e insuficiência respiratória. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
7. Quais são os critérios clínicos para suspeita de hantavirose?
A suspeita deve ser levantada em pacientes com quadro febril agudo (temperatura ≥ 38°C) de início súbito, acompanhado de dores musculares, tosse, dispneia e história de exposição a roedores ou seus excrementos nos últimos 45 dias. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
8. Quais exames laboratoriais são realizados para o diagnóstico da hantavirose?
Os principais exames incluem hemograma (revelando leucocitose com desvio à esquerda e linfócitos atípicos), radiografia de tórax (mostrando infiltrado pulmonar bilateral) e, fundamentalmente, a detecção de anticorpos IgM anti-hantavírus (sorologia) ou material genético do vírus (RT-PCR). Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
9. Quando a hantavirose deve ser notificada?
A hantavirose é uma doença de notificação compulsória imediata à Vigilância Epidemiológica Municipal ou Estadual, logo após a suspeita clínica, antes mesmo da confirmação laboratorial. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
10. Qual é o papel da equipe de controle de infecção diante de um caso suspeito?
A equipe de controle de infecção deve ser imediatamente acionada para orientar a equipe de saúde sobre as precauções adequadas (precauções para gotículas/aerossóis e precauções padrão) e garantir a implementação de medidas preventivas no ambiente hospitalar. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
11. Quais são as precauções necessárias para o atendimento de pacientes com hantavirose?
Embora a transmissão de pessoa para pessoa seja rara, recomenda-se a adoção de precauções para gotículas e aerossóis durante o atendimento, incluindo o uso de máscaras cirúrgicas ou N95 pelo profissional e, se possível, pelo paciente. As precauções padrão também devem ser rigorosamente seguidas. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
12. Como deve ser o manejo de pacientes com Síndrome Pulmonar por Hantavírus (SPH)?
Pacientes com SPH devem ser monitorados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) devido ao alto risco de complicações. O tratamento é de suporte, incluindo oxigenoterapia, ventilação mecânica e reposição volêmica cuidadosa, sob estrita vigilância da função renal e hemodinâmica. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
13. Existe tratamento antivírico específico para a hantavirose?
Atualmente, não há um antiviral específico para a hantavirose. O tratamento baseia-se em medidas de suporte intensivo para estabilizar o paciente e auxiliar na recuperação, até que o sistema imunológico combata o vírus. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
14. Quais são as complicações graves da hantavirose?
As principais complicações incluem edema pulmonar agudo, insuficiência respiratória grave, insuficiência renal aguda e choque cardiogênico. Estas complicações podem levar à morte se não tratadas precocemente e de forma adequada. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
15. Qual é a letalidade da hantavirose?
A hantavirose, especialmente quando evolui para a SPH, apresenta uma alta taxa de letalidade, variando entre 30% e 50% dos casos. O diagnóstico e o tratamento precoces são cruciais para melhorar o prognóstico. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
16. Quais são as principais medidas preventivas para a hantavirose?
As medidas de prevenção baseiam-se no controle de roedores e na redução da exposição aos seus excrementos. Isso inclui manter ambientes limpos e livres de entulhos, evitar o acúmulo de lixo, vedar frestas que permitam a entrada de roedores e ventilar ambientes fechados antes de limpá-los. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
17. Como deve ser feita a limpeza em áreas com presença de roedores?
A limpeza deve ser realizada utilizando água e sabão ou soluções desinfetantes (como água sanitária diluída). É essencial ventilar bem o ambiente antes de iniciar a limpeza para dispersar eventuais aerossóis contendo o vírus. O uso de máscaras e luvas é recomendado. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
18. A hantavirose é comum no Brasil?
A hantavirose é considerada uma doença emergente e negligenciada no Brasil, com surtos esporádicos ocorrendo em diversas regiões, especialmente em áreas rurais e de desmatamento. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
19. Quais são as vacinas disponíveis para a hantavirose?
Atualmente, não existe uma vacina disponível para a hantavirose aprovada para uso em larga escala. Pesquisas estão em andamento para o desenvolvimento de vacinas eficazes. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
20. Onde posso encontrar mais informações sobre hantavirose para profissionais de saúde?
O site do Instituto CCIH (https://www.ccih.med.br/) oferece recursos adicionais, artigos e guias práticos sobre hantavirose e outras doenças infecciosas, destinados a auxiliar os profissionais de saúde no controle e prevenção de infecções. Fonte: https://ccih.med.br/hantavirose-da-suspeita-clinica-a-notificacao-um-guia-para-a-equipe-de-controle-de-infeccao/
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Introdução: Contextualização Histórica e Relevância Atual
A hantavirose constitui exemplo paradigmático de doença infecciosa emergente intimamente ligada à interface entre os ecossistemas naturais, a atividade humana e as condições socioeconômicas das populações rurais. Trata-se de uma zoonose viral aguda cuja relevância clínica e de saúde pública é determinada, em larga medida, pela sua elevada letalidade, pela ausência de tratamento específico eficaz e pelos desafios diagnósticos que o quadro clínico inespecífico em sua fase inicial impõe ao médico e à equipe de saúde.
Historicamente, a primeira forma clínica bem documentada de hantavirose humana foi a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), identificada durante a Guerra da Coreia (1950–1953), quando tropas das Nações Unidas, principalmente soldados americanos, foram acometidas por uma doença febril hemorrágica com comprometimento renal grave. Estudos retrospectivos, contudo, sugerem que registros compatíveis com a FHSR já teriam ocorrido na Rússia desde 1913, no Japão em 1932 e na Escandinávia em 1934. O agente etiológico dessa forma clínica, denominado vírus Hantaan, foi isolado pelo pesquisador Ho Wang Lee em 1976, a partir de um roedor silvestre capturado às margens do Rio Han, na Coreia do Sul, origem da denominação do gênero.
A segunda e mais dramática forma clínica, a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), foi reconhecida apenas em maio de 1993, quando jovens adultos saudáveis pertencentes à Nação Indígena Navajo, residentes na região conhecida como “Four Corners”, área do sudoeste dos Estados Unidos compartilhada pelos estados do Novo México, Arizona, Colorado e Utah, passaram a apresentar quadros graves de insuficiência respiratória aguda com elevada mortalidade. Seis meses após os primeiros casos, o vírus responsável foi isolado a partir de um roedor silvestre da espécie Peromyscus maniculatus e inicialmente denominado “Four Corners” e “Muerto Canyon”; posteriormente recebeu a denominação definitiva de vírus Sin Nombre. A epidemia de 1993 foi precedida pelo fenômeno climático El Niño de 1992–1993, que resultou em precipitações intensas na região, expansão da vegetação e consequente explosão populacional dos roedores reservatórios, chegando a um aumento de até dez vezes no número desses animais, com consequente elevação da exposição humana ao vírus.
No Brasil, os primeiros casos de SCPH foram identificados em novembro de 1993, no município de Juquitiba, estado de São Paulo, acometendo simultaneamente três irmãos residentes em zona rural, em contexto epidemiológico relacionado ao fenômeno da “ratada”, superpopulação de roedores induzida pela floração cíclica de bambus nativos da Mata Atlântica. Desde então, a doença se disseminou por todo o território nacional, sendo atualmente reconhecida em 16 Unidades da Federação, com predomínio nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Em 2026, o tema voltou ao centro das atenções mundiais com a confirmação de um surto de hantavirose, possivelmente envolvendo transmissão inter-humana pelo vírus Andes, a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, resultando em cinco casos confirmados e três óbitos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O episódio reacende questões fundamentais sobre a biossegurança em ambientes confinados, o monitoramento internacional de doenças emergentes e a capacidade de resposta dos sistemas de saúde diante de um patógeno de alta letalidade.
Para o profissional de saúde que atua no controle de infecção hospitalar, a hantavirose representa um duplo desafio: o manejo clínico do paciente grave admitido em unidade de terapia intensiva e a vigilância epidemiológica ativa para detecção precoce de casos e investigação de possíveis surtos em comunidades rurais.
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Taxonomia e Virologia: Estrutura e Biologia Molecular do Hantavírus
2.1 Classificação Taxonômica
Os hantavírus passaram por importantes revisões taxonômicas ao longo das últimas décadas. Atualmente, são classificados na ordem Bunyavirales, família Hantaviridae, gênero Orthohantavirus. Essa reorganização reflete o avanço do conhecimento sobre a biologia molecular desses agentes e abandona a classificação anterior, que os situava na família Bunyaviridae, extinta no sistema taxonômico do Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV). A família Hantaviridae abriga exclusivamente os ortohantavírus, distinguindo-os dos demais membros da ordem Bunyavirales, que incluem arbovírus como flebovírus, nairovírus e orthobunyavírus.
Diferentemente dos demais membros da ordem Bunyavirales, os ortohantavírus não são artrópodes-vetores (arbovírus): são transmitidos diretamente de roedores infectados a outros hospedeiros vertebrados, incluindo seres humanos, sem a intermediação de insetos ou outros artrópodes. Essa característica epidemiológica única entre os bunyavírus reflete uma relação evolutiva singular com seus hospedeiros reservatórios, desenvolvida ao longo de pelo menos 20 milhões de anos de coevolução.
2.2 Morfologia e Estrutura Viral
O vírion do Orthohantavirus tem forma esférica a pleomórfica, com diâmetro aproximado de 80 a 120 nm. É envelopado por uma bicamada lipídica derivada do retículo endoplasmático da célula hospedeira, na qual estão inseridas glicoproteínas de superfície organizadas em projeções denominadas peplômeros ou spikes. Essas glicoproteínas, denominadas Gn (anteriormente G1) e Gc (anteriormente G2), são codificadas pelo segmento M do genoma viral e desempenham papel central na ligação do vírus aos receptores celulares e na fusão com a membrana da célula hospedeira, sendo, portanto, os principais alvos de anticorpos neutralizantes.
O envelope lipídico envolve três segmentos helicoidais de ribonucleocapsídeo, constituídos pelo RNA viral complexado à proteína N do nucleocapsídeo e à RNA polimerase RNA-dependente (RdRp), codificada pelo segmento L. A proteína N é altamente imunogênica e constitui o principal antígeno utilizado nos ensaios diagnósticos laboratoriais, particularmente nos testes de ELISA para detecção de anticorpos IgM e IgG.
2.3 Organização Genômica
O genoma dos ortohantavírus é constituído por três segmentos de RNA de fita simples, sentido negativo, denominados L (longo), M (médio) e S (pequeno):
O segmento L possui aproximadamente 6.300 a 12.000 nucleotídeos e codifica a RNA polimerase RNA-dependente (RdRp, ou proteína L), enzima essencial para a replicação e transcrição do genoma viral. Por ser altamente conservado entre as diferentes espécies de ortohantavírus, o segmento L é frequentemente utilizado em estudos filogenéticos para classificação e identificação de novas cepas.
O segmento M contém de 3.500 a 6.000 nucleotídeos e codifica uma poliproteína precursora que é clivada co-traducionalmente nas glicoproteínas Gn e Gc. Essas glicoproteínas formam heterodímeros que se inserem na membrana do envelope viral e são responsáveis pela ligação às integrinas β3 das células endoteliais humanas, mecanismo central na patogênese da doença. O segmento M é o que apresenta maior variabilidade genética entre as espécies de hantavírus, refletindo a diversidade de hospedeiros reservatórios e biomas.
O segmento S, com 1.000 a 2.200 nucleotídeos, codifica a proteína N do nucleocapsídeo, que envolve e protege o RNA genômico. Além de sua função estrutural, a proteína N desempenha papel nos mecanismos de replicação viral e é a proteína mais abundantemente expressa durante a infecção, sendo o principal antígeno para diagnóstico sorológico.
Uma característica peculiar dos ortohantavírus, compartilhada com outros membros da ordem Bunyavirales, é a estratégia de codificação ambissense (parcialmente) no segmento S de algumas espécies, o que permite a expressão de proteínas tanto no sentido positivo quanto negativo da fita de RNA — aumentando a capacidade de codificação do genoma compacto.
2.4 Replicação Viral
A replicação dos ortohantavírus se inicia pela ligação das glicoproteínas Gn e Gc a receptores celulares específicos, sendo as integrinas αvβ3 e β1 os principais receptores identificados nas células endoteliais humanas. Após a ligação, o vírus é internalizado por endocitose mediada por receptor. No interior do endossoma acidificado, ocorre a fusão do envelope viral com a membrana endossomal, liberando o ribonucleocapsídeo no citoplasma.
No citoplasma, a RNA polimerase viral inicia a transcrição primária dos três segmentos de RNA genômico (sentido negativo) em RNA mensageiro (sentido positivo), que são posteriormente traduzidos nos ribossomos da célula hospedeira. Paralelamente, o RNA genômico é replicado via um intermediário de RNA de fita positiva. A montagem das novas partículas virais ocorre no complexo de Golgi, onde as glicoproteínas Gn e Gc se acumulam; o nucleocapsídeo, após formação, é transportado para essa região e ocorre o brotamento do vírion para o lúmen do Golgi, com posterior exocitose. Notavelmente, a infecção por hantavírus não induz efeito citopático evidente nas células endoteliais, característica que tem implicações importantes na patogênese da doença, como discutido adiante.
2.5 Diversidade de Espécies e Cepas Brasileiras
Atualmente, o gênero Orthohantavirus compreende mais de 40 espécies reconhecidas, além de dezenas de genótipos adicionais em processo de caracterização. A distribuição geográfica dessas espécies segue estritamente a distribuição de seus respectivos roedores reservatórios, evidenciando a coevolução vírus-hospedeiro.
Do ponto de vista da patologia humana, os ortohantavírus são classicamente divididos em dois grandes grupos clínico-geográficos:
Hantavírus do Velho Mundo (Eurásia e África): causam predominantemente a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR). As principais espécies são o vírus Hantaan (reservatório: Apodemus agrarius), responsável pela forma mais grave da FHSR na Ásia; o vírus Seoul (reservatório: Rattus norvegicus), de distribuição cosmopolita e causador de FHSR leve a moderada; o vírus Dobrava/Belgrado (Apodemus flavicollis), causador de FHSR grave nos Bálcãs; e o vírus Puumala (Clethrionomys glareolus), responsável pela “nefropatia epidêmica” escandinávia, de curso benigno.
Hantavírus do Novo Mundo (Américas): causam predominantemente a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH). As principais espécies incluem o vírus Sin Nombre (Peromyscus maniculatus), nos EUA; o vírus Andes (Oligoryzomys longicaudatus), na Argentina e Chile, único hantavírus com transmissão inter-humana documentada; e as diversas cepas brasileiras.
No Brasil, sete variantes de hantavírus são reconhecidas como causadoras de casos humanos de SCPH:
- Vírus Araraquara (reservatório: Necromys lasiurus): distribuído nos biomas Cerrado e Caatinga; responsável pela maioria dos casos nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste; considerado possivelmente o hantavírus mais virulento do mundo, com taxas de letalidade que podem superar 80% em casos graves.
- Vírus Juquitiba (reservatório: Oligoryzomys nigripes): presente nas áreas de Mata Atlântica, especialmente nos estados do Sul e São Paulo; foi o primeiro hantavírus identificado no Brasil.
- Vírus Araucária (variante de Juquitiba): circulante no sul do Brasil.
- Vírus Castelo dos Sonhos (reservatório: Oligoryzomys utiaritensis): identificado inicialmente no estado do Pará, responsável pelos casos na região Norte.
- Vírus Anajatuba (reservatório: Oligoryzomys fornesi): identificado no Maranhão.
- Vírus Laguna Negra (reservatório: Calomys aff. callosus): variante relacionada ao vírus sul-americano Laguna Negra, identificada no Mato Grosso.
- Vírus Paranoá (variante de Araraquara): circulante no Distrito Federal e entorno.
Adicionalmente, três genótipos virais foram identificados apenas em roedores brasileiros (Rio Mamoré, Rio Mearim, Jaborá), sem associação conhecida com doença humana. Essa diversidade viral reflete a riqueza dos ecossistemas brasileiros e a ampla variedade de roedores sigmodontíneos nativos, fator que confere ao Brasil um caráter singular na epidemiologia global da hantavirose.
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Reservatórios, Ecologia e Transmissão
3.1 Roedores Sigmodontíneos como Reservatórios Primários
A manutenção dos ortohantavírus na natureza depende fundamentalmente da relação parasita-hospedeiro estabelecida com roedores silvestres. No Brasil, os reservatórios pertencem exclusivamente à ordem Rodentia, família Cricetidae, subfamília Sigmodontinae, grupo que compreende 117 espécies em 36 gêneros no território nacional. Cada cepa viral, em geral, está associada a uma única espécie reservatória, refletindo o processo de coevolução entre vírus e hospedeiro ao longo de milhões de anos.
Nos animais reservatórios, a infecção pelo hantavírus tem caráter persistente e assintomático: os roedores infectados permanecem como reservatórios por longos períodos, provavelmente por toda a vida, sem manifestar doença aparente, mas eliminando partículas virais continuamente através da urina, fezes e saliva. Essa característica é fundamental para a manutenção do ciclo de transmissão no ambiente. A transmissão entre roedores ocorre principalmente por contato direto e por mordidas durante brigas territoriais, sendo mais frequente em machos adultos, o que explica a maior soroprevalência encontrada nesse grupo nas pesquisas ecoepidemiológicas.
Os principais roedores reservatórios no Brasil e suas respectivas associações virais são:
Necromys lasiurus (antigo Bolomys lasiurus): espécie de ampla distribuição nacional, presente nos biomas Cerrado, Caatinga e alguns fragmentos de Mata Atlântica; reservatório do vírus Araraquara, o mais virulento entre os hantavírus brasileiros. Possui hábito terrestre, é onívoro (insetos e sementes) e apresenta dois picos de atividade diária (crepuscular e matinal). Adapta-se bem a áreas agrícolas, especialmente pastagens de braquiária (Brachiaria decumbens) e culturas de milho e cana-de-açúcar, nos quais pode atingir densidades populacionais muito elevadas, fato diretamente relacionado ao risco de transmissão ocupacional.
Oligoryzomys nigripes: roedor arborícola de menor porte, reservatório do vírus Juquitiba; distribui-se principalmente nas regiões de Mata Atlântica dos estados do Sul e de São Paulo. A espécie O. utiaritensis é reservatória do vírus Castelo dos Sonhos, no norte do país.
Calomys spp. (porquinho-do-mato ou bolseiro): gênero com hábitos terrestres e alimentação granívora, encontrado nos biomas Cerrado, Caatinga e Pantanal; algumas espécies são reservatórias do vírus Laguna Negra.
Akodon spp.: gênero com diversas espécies de importância epidemiológica, habitando formações florestais e abertas ao longo da Mata Atlântica e do Cerrado. Embora com soroprevalências menores que os gêneros anteriores, há evidências de envolvimento na epidemiologia local da hantavirose em algumas regiões.
3.2 Fenômeno da Ratada e Dinâmica Populacional
A densidade populacional dos roedores reservatórios é variável ao longo do ano e entre anos consecutivos, respondendo a fatores ecológicos como disponibilidade de alimento, pluviosidade, temperatura e competição interespécies. No contexto da epidemiologia da hantavirose, a principal ameaça decorrente dessa variabilidade é o fenômeno denominado “ratada”, explosão populacional de roedores silvestres associada à oferta extraordinária de alimento.
No Brasil, o fenômeno da ratada está historicamente ligado à floração e frutificação cíclica de espécies de bambu nativas da Mata Atlântica, como as taquaras (Chusquea spp., Merostachys spp.), que florescem e frutificam a intervalos irregulares de 10 a 30 anos, produzindo abundante quantidade de sementes. Esse evento promove crescimento explosivo das populações de Oligoryzomys nigripes e outras espécies granívoras, que podem aumentar vinte vezes em número em poucos meses. Ao final do ciclo da taquara, com o esgotamento das sementes, os roedores em superpopulação dispersam-se em busca de outras fontes alimentares, invadindo residências, silos, paióis e áreas de cultivo, condição que aumenta dramaticamente o risco de exposição humana ao vírus.
Fenômeno análogo ocorre em áreas de cerrado, associado à expansão agrícola e ao manejo inadequado do meio ambiente. Segundo Prist e colaboradores (2017), a expansão da cana-de-açúcar e as alterações climáticas associadas ao aquecimento global estão ampliando o risco de infecção por hantavírus no estado de São Paulo, ao criar condições favoráveis para o crescimento das populações de Necromys lasiurus. Pesquisa desenvolvida na USP demonstrou que o risco de transmissão da hantavirose está correlacionado positivamente com indicadores climáticos de precipitação e temperatura, especialmente nas regiões de cerrado, onde a sazonalidade é marcante, com pico de casos nos meses mais secos, coincidindo com a colheita de grãos e forragens.
3.3 Mecanismos de Transmissão ao Ser Humano
A transmissão dos hantavírus ao ser humano ocorre principalmente por via aerogênica, mediante inalação de aerossóis formados pela aerosolização de partículas de urina, fezes e saliva de roedores infectados. Essa via é particularmente eficiente em ambientes fechados, pouco ventilados, onde as partículas virais permanecem suspensas no ar por período prolongado. Locais como paióis, silos, tulhas, galpões, cabanas e residências abandonadas constituem os principais cenários de risco.
Do ponto de vista da infectividade, o hantavírus é relativamente estável no ambiente quando protegido da luz ultravioleta, podendo sobreviver por horas ou mesmo dias em materiais secos à temperatura ambiente. Experimentos demonstram que os vírus permanecem viáveis em excretas de roedores ressecadas por períodos variáveis, dependendo da temperatura, umidade e incidência solar, fatores que justificam a recomendação de umedecimento das superfícies contaminadas antes de qualquer procedimento de limpeza.
Além da via aerogênica, outras formas de transmissão são documentadas, ainda que menos frequentes:
- Via percutânea: mordedura de roedores infectados ou contato de escoriações cutâneas com excretas virais.
- Via mucosa: contato de mucosas ocular, nasal ou oral com mãos ou objetos contaminados com excretas de roedores.
- Ingestão de alimentos contaminados: via documentada experimentalmente, mas de relevância epidemiológica incerta na transmissão humana.
- Transmissão inter-humana: forma excepcionalmente rara, documentada de forma robusta apenas para o vírus Andes, em surtos na Argentina e no Chile. Segundo Martínez e colaboradores (2020), sequenciamento completo do genoma viral confirmou transmissão pessoa a pessoa do vírus Andes em um cluster de três casos na Argentina em 2014. A transmissão inter-humana ocorre durante a fase prodrômica, quando a carga viral é elevada, e o período de incubação após contato inter-humano varia de 9 a 40 dias. O surto no cruzeiro MV Hondius em 2026, com casos inicialmente originados na Argentina, foi investigado pela OMS como possível evento de transmissão inter-humana pelo vírus Andes, embora a origem dos contágios secundários ainda não tenha sido definitivamente esclarecida.
É fundamental enfatizar que, no Brasil, não há evidências de transmissão inter-humana para nenhuma das cepas virais nativas (Araraquara, Juquitiba, Castelo dos Sonhos, Anajatuba, Laguna Negra, Paranoá). Assim, o isolamento respiratório e o uso de máscaras N95 no manejo hospitalar de pacientes com SCPH causada por hantavírus brasileiros não são recomendados pelo Ministério da Saúde, diferentemente do que seria indicado para casos de infecção pelo vírus Andes.
3.4 Período de Incubação e Período de Transmissibilidade
O período de incubação da SCPH, definido como o intervalo entre a exposição ao vírus e o início dos primeiros sintomas, varia amplamente, de 3 a 60 dias, com média de 1 a 5 semanas. Essa variabilidade é relevante para a investigação epidemiológica e para a definição do período de rastreamento de exposição dos casos suspeitos. Em termos práticos, todo paciente com síndrome febril aguda que relate contato com roedores ou estada em áreas de risco nos 60 dias anteriores ao início dos sintomas deve ter a hantavirose incluída no diagnóstico diferencial.
O período de transmissibilidade do hantavírus ao homem está diretamente relacionado à presença de roedores infectados e de suas excretas no ambiente. Após a infecção humana, não há, em geral, transmissão do hantavírus de pessoa a pessoa, com a exceção documentada do vírus Andes. A viremia em humanos ocorre já antes do surgimento dos sintomas e tende a desaparecer rapidamente após a produção de anticorpos neutralizantes, geralmente dentro da primeira semana de doença.
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Fisiopatologia e Imunopatogênese da Síndrome Cardiopulmonar
4.1 Tropismo Endotelial e Mecanismo de Infecção Celular
Compreender a fisiopatologia da SCPH exige reconhecer que o hantavírus apresenta tropismo marcado pelas células endoteliais vasculares, particularmente aquelas do leito capilar pulmonar, cardíaco e renal. A infecção, após a inalação dos aerossóis virais, inicia-se no parênquima pulmonar, onde os macrófagos alveolares capturam o vírus e o transportam para os linfonodos de drenagem regional. Nesses sítios, ocorre replicação viral inicial, seguida de disseminação sistêmica por via hematogênica, com estabelecimento de viremia e infecção do endotélio vascular de múltiplos órgãos.
A ligação do hantavírus à célula endotelial é mediada pelas glicoproteínas Gn e Gc, que se ligam às integrinas αvβ3 e β1 da superfície celular. As integrinas β3, em especial, fazem parte das “tight junctions” que mantêm a integridade da barreira alvéolo-capilar. Ao se ligar a essas integrinas, o vírus interfere com sua função de adesão e sinalização celular, comprometendo a regulação da permeabilidade capilar ainda antes de qualquer resposta inflamatória significativa. As plaquetas também expressam integrinas β3 em sua membrana e são infectadas pelos hantavírus, resultando em trombocitopenia e redução da adesividade plaquetária, achados laboratoriais precoces e de valor diagnóstico.
4.2 Imunopatogênese: O Papel Central da Resposta Imune
Um dos aspectos mais intrigantes da patogênese da SCPH é que a gravidade da doença se correlaciona paradoxalmente com a intensidade da resposta imune do hospedeiro, e não diretamente com o efeito citopático do vírus. Estudos imunohistoquímicos em tecido pulmonar de casos fatais de SCPH mostram extensa distribuição de antígenos virais em células endoteliais, sem evidência de necrose celular significativa. Isso indica que a destruição tecidual e o edema pulmonar não resultam primariamente de efeito lítico do vírus sobre as células, mas de uma resposta imune exuberantemente ativada.
Segundo Ferreira (2003), a gravidade da doença aumenta justamente a partir do surgimento da resposta imune adaptativa. Os linfócitos T citotóxicos (CD8+) ativados, ao reconhecerem antígenos virais expressos no endotélio infectado, liberam citocinas pró-inflamatórias e moléculas efetoras que amplificam a lesão endotelial. Paralelamente, os macrófagos teciduais ativados produzem quantidades elevadas de fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), interleucina-1 (IL-1), interferon-gama (IFN-γ), fator ativador de plaquetas e leucotrienos, mediadores que aumentam diretamente a permeabilidade vascular e precipitam o extravasamento de plasma do leito capilar para o interstício e os alvéolos pulmonares.
O resultado macroscópico desse processo é o desenvolvimento de edema pulmonar não cardiogênico de instalação rápida, caracterizado por aumento da permeabilidade capilar pulmonar com extravasamento de fluido proteico para o espaço alveolar, padrão histológico compatível com Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA). A velocidade de progressão desse edema é notável: pacientes com SCPH podem passar de um quadro prodrômico relativamente benigno para insuficiência respiratória grave em questão de horas, frequentemente no intervalo de 4 a 24 horas.
4.3 Choque Cardiogênico e Disfunção Miocárdica
Além do comprometimento pulmonar, a SCPH se distingue de outras causas de SDRA pelo frequente desenvolvimento de choque cardiogênico, componente que justificou a mudança de nomenclatura de “Síndrome Pulmonar por Hantavírus” (SPH) para “Síndrome Cardiopulmonar” (SCPH). O mecanismo do choque cardiogênico na SCPH não está completamente elucidado. Observa-se ausência de fenômeno inflamatório significativo no miocárdio de casos fatais, sugerindo que a disfunção miocárdica não resulta de miocardite viral direta. A depressão da função ventricular tem sido atribuída à ação de mediadores circulantes e à disfunção das células endoteliais do microleito coronariano.
Uma associação importante foi identificada entre determinados haplótipos HLA-B e a mortalidade por choque na SCPH, sugerindo que fatores genéticos do hospedeiro modulam a intensidade da resposta imune e, consequentemente, o prognóstico. O baixo nível de anticorpos neutralizantes no momento do pico da viremia também se correlaciona com o choque grave, indicando que a resposta imune humoral protetora não se estabelece rapidamente o suficiente para abortar o ciclo de replicação viral antes do colapso hemodinâmico.
4.4 Alterações Patológicas e Histológicas
Do ponto de vista anatomopatológico, o principal achado na SCPH é o edema pulmonar com componente intersticial e alveolar, acompanhado de hemorragia alveolar e pneumonia intersticial leve, caracterizada por infiltrado de imunoblastos e células mononucleares. A presença de imunoblastos, linfócitos T ativados de grande tamanho, em tecido pulmonar e no sangue periférico é achado patognomônico, com alto valor diagnóstico quando observado no hemograma do paciente.
Além do pulmão, antígenos virais são encontrados por imunohistoquímica em células endoteliais do coração e do tecido linfoide. O rim e o fígado podem apresentar graus variáveis de comprometimento, embora a insuficiência renal aguda seja mais característica da FHSR dos hantavírus do Velho Mundo. Em casos graves de SCPH causados pelo vírus Araraquara, no entanto, pode ocorrer comprometimento renal significativo como manifestação associada.
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Quadro Clínico e Apresentação da Doença
5.1 Espectro Clínico da Hantavirose
A infecção humana pelos hantavírus apresenta espectro clínico que varia desde formas assintomáticas ou oligossintomáticas até quadros gravíssimos com insuficiência respiratória e choque, potencialmente fatais. A forma mais comum no Brasil é a SCPH, cujo curso pode ser dividido em quatro fases clínicas sequenciais: prodrômica, cardiopulmonar, diurética e de convalescença.
É provável que muitos casos de doença por hantavírus não sejam relatados ou diagnosticados, em parte pela confusão clínica com outras enfermidades febris como leptospirose, dengue, malária e influenza, especialmente em regiões tropicais onde essas doenças têm elevada prevalência.
5.2 Fase Prodrômica (Período Inespecífico)
A fase prodrômica da SCPH tem duração média de 3 a 5 dias (variando de 2 a 7 dias) e se caracteriza por sintomas sistêmicos inespecíficos que podem ser confundidos com síndrome gripal ou outras infecções virais. Os sintomas principais são:
- Febre alta (geralmente acima de 38,5°C), de início abrupto, frequentemente acompanhada de calafrios;
- Mialgia intensa, predominantemente em membros inferiores, dorso e região lombar, sintoma frequentemente relatado como “dor no corpo intensa e incapacitante”;
- Cefaleia, geralmente holocraniana e de moderada a forte intensidade;
- Náuseas e vômitos, presentes em proporção significativa dos casos;
- Dor abdominal, que pode ser proeminente e levar a diagnósticos errôneos de síndrome abdominal aguda ou gastroenterite;
- Tosse seca, presente em alguns casos, mas sem sintomas de vias aéreas superiores (ausência de coriza, congestão nasal ou dor de garganta, achado que auxilia na diferenciação com viroses respiratórias comuns).
Ao exame físico, pode-se encontrar taquicardia, sudorese e sensibilidade abdominal difusa. O exame respiratório habitualmente ainda é normal nesta fase. Os exames laboratoriais realizados durante o pródromo já revelam alterações sugestivas: trombocitopenia progressiva (plaquetas frequentemente abaixo de 150.000/mm³), leucocitose com desvio à esquerda e presença de imunoblastos (linfócitos T ativados) no esfregaço sanguíneo, achados que, em conjunto com a história epidemiológica de exposição a roedores, devem alertar o clínico para a possibilidade de hantavirose.
A hemoconcentração (hematócrito superior a 45%, com valores de 55% ou mais nos casos graves) é outro achado laboratorial precoce de elevado valor preditivo, refletindo o extravasamento plasmático que precede o edema pulmonar clínico. A elevação da ureia e creatinina séricas, de VHS e da proteína C reativa também pode ocorrer, assim como aumento de LDH e de transaminases hepáticas em graus variáveis.
5.3 Fase Cardiopulmonar (Período Crítico)
A transição da fase prodrômica para a fase cardiopulmonar representa o momento clínico mais perigoso da SCPH, sendo frequentemente abrupta e de rápida progressão. O surgimento de tosse seca, seguida de dispneia progressiva e taquipneia, anuncia o início do edema pulmonar não cardiogênico. Em horas, a hipoxemia se aprofunda, instalando-se insuficiência respiratória aguda grave que requer suporte ventilatório.
Do ponto de vista hemodinâmico, esta fase pode ser acompanhada por hipotensão arterial progressiva, taquicardia e sinais de baixo débito cardíaco, traduzindo o componente cardiogênico da síndrome. Alguns pacientes evoluem para choque cardiogênico refratário, situação que demanda suporte vasoativo agressivo e, em casos selecionados, terapia com oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO).
A radiografia de tórax nesta fase revela edema intersticial bilateral, que pode progredir rapidamente para edema alveolar com distribuição central ou basal bilateral. Na tomografia computadorizada de alta resolução (TCAR), os achados mais frequentes são opacidades em “vidro fosco” bilaterais, espessamento de septos interlobulares e, em casos mais avançados, consolidações e derrame pleural. A progressão radiológica pode ser dramaticamente rápida, com um radiograma de tórax quase normal evoluindo para infiltrados bilaterais extensos em poucas horas.
As alterações laboratoriais atingem seu nadir nesta fase: plaquetopenia grave (pode chegar a valores inferiores a 50.000/mm³ em casos graves), hemoconcentração extrema, leucocitose com desvio à esquerda, alargamento do TTPA, elevação de LDH e troponina cardíaca, esta última refletindo a disfunção miocárdica. A hipoxemia arterial grave (PO₂ < 70 mmHg em ar ambiente) é universal nos casos que evoluem para a fase cardiopulmonar.
É nesta fase que a maioria dos óbitos por SCPH ocorre, geralmente por choque cardiovascular refratário ou insuficiência respiratória, dentro de 24 a 72 horas após o início dos sintomas respiratórios. A taxa de mortalidade durante a fase cardiopulmonar, nos casos que necessitam de UTI sem ECMO disponível, pode superar 50%.
5.4 Fase Diurética e Convalescença
Nos pacientes que superam a fase cardiopulmonar, inicia-se a fase diurética, marcada por diurese importante (indicativa de resolução do edema pulmonar e de melhora da permeabilidade capilar), melhora progressiva da função respiratória e estabilização hemodinâmica. A febre declina e os parâmetros laboratoriais gradualmente se normalizam. A recuperação clínica, uma vez iniciada, costuma ser relativamente rápida: os sobreviventes habitualmente recebem alta hospitalar dentro de 7 a 14 dias após o início da fase crítica.
A fase de convalescença pode se estender por semanas a meses, com persistência de fadiga, dispneia aos esforços e astenia. A maioria dos sobreviventes recupera a função pulmonar de forma completa ao longo de meses. Estudos de seguimento de longo prazo em sobreviventes de SCPH grave não identificaram sequelas permanentes significativas na função pulmonar, embora alguns pacientes relatem intolerância ao exercício por período variável.
5.5 Febre Hemorrágica com Síndrome Renal: A Forma Clínica do Velho Mundo
Embora não seja a forma predominante no Brasil, a FHSR merece conhecimento do profissional de saúde, especialmente pelo crescente número de viajantes internacionais e pelas mudanças climáticas que podem ampliar a distribuição dos hantavírus. A FHSR é causada pelos hantavírus do Velho Mundo (Hantaan, Seoul, Dobrava, Puumala) e apresenta um curso clínico distinto da SCPH, caracterizado por cinco fases clássicas: febril, hipotensiva, oligúrica, diurética e de convalescença.
A fase inicial da FHSR inclui febre, cefaleia, dor abdominal e lombar, vertigem, visão borrada, conjuntivite e petéquias em tronco e palato mole. A insuficiência renal aguda, com oligúria ou anúria, domina o quadro clínico após 4 a 7 dias do início da febre, podendo ser grave o suficiente para requerer hemodiálise. As manifestações hemorrágicas, petéquias, equimoses, hematúria e, nos casos mais graves, hemorragias digestivas e pulmonares, são características desta forma clínica, refletindo a trombocitopenia e a disfunção endotelial mediada pelo vírus. A taxa de mortalidade varia de 0,1% (vírus Puumala) a 5-15% (vírus Hantaan e Dobrava), sendo inferior à da SCPH americana.
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Diagnóstico
6.1 Diagnóstico Clínico-Epidemiológico
O diagnóstico precoce da hantavirose é desafiador e frequentemente tardio, em virtude do quadro prodrômico inespecífico e da falta de familiaridade de muitos profissionais de saúde com a doença, especialmente em centros urbanos. O elemento fundamental para a suspeição diagnóstica é a história epidemiológica: todo paciente com síndrome febril aguda, mialgia intensa e história de contato com roedores silvestres ou de atividade em áreas rurais, florestas, canaviais, pastos de braquiária ou ambientes fechados potencialmente infestados nos 60 dias anteriores deve ter a hantavirose incluída no diagnóstico diferencial.
O Ministério da Saúde define como caso suspeito de SCPH todo indivíduo com doença febril aguda (temperatura superior a 37,8°C) e, pelo menos, um dos seguintes achados: cefaleia intensa, mialgia importante ou manifestações respiratórias (tosse, dispneia, taquipneia), sem outra etiologia estabelecida, com história epidemiológica compatível.
A tríade clínica de elevado valor preditivo positivo para SCPH, especialmente em contexto epidemiológico rural, é composta por: febre + mialgia intensa + trombocitopenia com imunoblastos no esfregaço sanguíneo. A presença desses três elementos, mesmo sem resultado laboratorial específico disponível, deve orientar a decisão de internação imediata e monitoramento intensivo.
6.2 Diagnóstico Laboratorial Específico
O diagnóstico laboratorial definitivo da hantavirose é realizado exclusivamente em laboratórios da rede do Ministério da Saúde (Lacen, Fiocruz, IAL) e baseia-se nos seguintes métodos:
Ensaio Imunoenzimático (ELISA-IgM): método de escolha para o diagnóstico da fase aguda da SCPH. Aproximadamente 95% dos pacientes com SCPH apresentam anticorpos IgM específicos para hantavírus detectáveis já no início dos sintomas, refletindo a robusta resposta imune humoral precoce que caracteriza a infecção. O teste é realizado com antígenos da proteína N recombinante do hantavírus e apresenta alta sensibilidade e especificidade. A amostra deve ser coletada preferencialmente nos primeiros dias após o início dos sintomas.
ELISA-IgG: utilizado principalmente em estudos epidemiológicos para detecção de infecções prévias em populações humanas e em roedores. No contexto diagnóstico individual, pode ser útil quando o IgM não é detectável na fase aguda, mediante análise de amostras pareadas (fase aguda e convalescente, com intervalo de 14 a 28 dias), evidência de soroconversão (quadruplicação do título) confirma o diagnóstico.
RT-PCR (Reação em Cadeia da Polimerase com Transcrição Reversa): técnica de diagnóstico molecular que detecta e amplifica sequências específicas do RNA viral em amostras de soro ou sangue total, com maior sensibilidade na fase inicial da doença, antes do surgimento dos anticorpos específicos. O RT-PCR também permite a identificação do genótipo viral, informação valiosa para estudos epidemiológicos e para a investigação ecoepidemiológica de surtos. É considerado exame complementar e de pesquisa, mas pode ser crítico para o diagnóstico em casos precoces ou atípicos.
Imunohistoquímica: técnica de referência para o diagnóstico post-mortem, identificando antígenos virais específicos de hantavírus em fragmentos de órgãos (pulmão, rim, coração, baço) coletados em necropsia. Também pode ser utilizada para diagnóstico quando não foi possível realizar sorologia em vida. Quando o óbito é recente, o ELISA-IgM pode ser realizado em amostra de sangue coletada do coração.
As amostras biológicas para diagnóstico laboratorial devem ser processadas com rigorosa observância das normas de biossegurança, incluindo o uso de equipamentos de proteção individual (EPI) adequados durante a coleta e o transporte das amostras.
6.3 Exames Laboratoriais Inespecíficos e de Monitoramento
Embora não confirmatórios, os exames laboratoriais de rotina são de grande valor no monitoramento da evolução clínica e na avaliação da gravidade dos casos suspeitos de SCPH. Os principais achados são:
- Hemograma: leucocitose com desvio à esquerda (leucócitos acima de 15.000/mm³, com formas jovens), plaquetopenia progressiva (abaixo de 150.000/mm³ na maioria dos casos; pode atingir valores críticos abaixo de 50.000/mm³) e presença de imunoblastos no esfregaço sanguíneo, este último achado, quando presente, é altamente sugestivo de hantavirose em contexto clínico-epidemiológico compatível;
- Hematócrito: hemoconcentração (superior a 45%, frequentemente 55–65% nos casos graves), refletindo o extravasamento plasmático;
- Coagulograma: alargamento de TTPA e redução da atividade protrombínica, sinalizando coagulopatia de consumo ou disfunção hepática associada;
- Bioquímica: elevação de ureia e creatinina (lesão renal aguda), aumento de LDH (marcador de lesão tecidual difusa e hemólise), elevação de transaminases (envolvimento hepático), elevação de troponina I e T e de BNP/NT-proBNP (disfunção miocárdica);
- Gasometria arterial: hipoxemia progressiva (PO₂ < 70 mmHg) e, em casos graves, acidose respiratória e metabólica;
- Radiografia de tórax: na fase prodrômica pode ser normal ou mostrar discreto infiltrado intersticial; na fase cardiopulmonar, apresenta edema pulmonar bilateral de progressão rápida, podendo incluir derrame pleural.
6.4 Diagnóstico Diferencial
O diagnóstico diferencial da hantavirose é amplo, especialmente na fase prodrômica, e inclui todas as causas de síndrome febril aguda com mialgia e eventual comprometimento respiratório. As principais entidades a serem consideradas são:
Na fase prodrômica: leptospirose (que compartilha o mecanismo de transmissão via roedores e o quadro febril com mialgia intensa), dengue, influenza, malária, febre tifoide, riquetsioses, hepatites virais agudas, toxoplasmose, doença de Chagas aguda e outras arboviroses;
Na fase cardiopulmonar: SDRA de outras etiologias (pneumococcemia, sepse bacteriana, influenza grave, COVID-19), edema pulmonar cardiogênico, pneumocistose, tuberculose miliar, pneumonia viral grave (adenovírus, metapneumovírus) e outras causas de insuficiência respiratória aguda.
A presença simultânea de síndrome febril intensa, mialgia, hemoconcentração, trombocitopenia com imunoblastos e rápida progressão para edema pulmonar em paciente com história epidemiológica rural é altamente específica de SCPH, combinação que raramente é reproduzida por outras etiologias. A ausência de sintomas de vias aéreas superiores (rinorreia, congestão nasal) ajuda a diferenciar a hantavirose das viroses respiratórias comuns.
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Tratamento
7.1 Princípios Gerais e Ausência de Terapia Antiviral Específica
O tratamento da SCPH permanece, até o presente, fundamentalmente baseado em medidas de suporte clínico e intensivo. Não existe antiviral específico com eficácia demonstrada para as cepas americanas de hantavírus, incluindo as brasileiras. A ribavirina, antiviral de amplo espectro com ação documentada na FHSR causada pelo vírus Hantaan e Puumala, foi avaliada em ensaios clínicos para a SCPH, mas não demonstrou benefício clínico significativo nas formas americanas da doença. O uso de corticosteroides tampouco apresenta evidências de eficácia na SCPH.
Diante dessa lacuna terapêutica, a chave para a redução da mortalidade reside no reconhecimento precoce da doença, na transferência imediata do paciente para hospital com UTI e na instituição rápida e competente das medidas de suporte. O atraso no diagnóstico e na transferência para UTI é o principal fator modificável associado à mortalidade evitável na SCPH.
7.2 Manejo na Fase Prodrômica e na Admissão Hospitalar
Todo paciente com suspeita clínica de hantavirose deve ser hospitalizado imediatamente, mesmo na fase prodrômica, independente da aparente benignidade dos sintomas iniciais. A evolução para insuficiência respiratória pode ser extremamente rápida e imprevisível, e a disponibilidade de suporte intensivo é determinante para o prognóstico. A Secretaria de Saúde do Paraná e o Ministério da Saúde orientam que pacientes com sinais de gravidade e suspeita de hantavirose sejam transportados para hospital com UTI, acompanhados de médico habilitado.
As medidas iniciais incluem:
- Internação em leito de observação com monitorização contínua de sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória, saturação de oxigênio);
- Controle rigoroso de balanço hídrico, com cuidado extremo para evitar balanço hídrico positivo, a reposição volêmica excessiva pode precipitar ou agravar o edema pulmonar;
- Coleta de amostras para sorologia específica (ELISA-IgM) e envio ao laboratório de referência;
- Realização de hemograma completo, coagulograma, bioquímica abrangente e gasometria arterial;
- Radiografia de tórax na admissão e monitoramento da evolução radiológica;
- Notificação compulsória imediata ao sistema de vigilância epidemiológica.
7.3 Manejo da Insuficiência Respiratória
O desenvolvimento de hipoxemia progressiva é a indicação primária de suporte respiratório intensivo. A oxigenoterapia suplementar deve ser iniciada precocemente, visando manter saturação periférica de oxigênio acima de 92–94%.
A ventilação não invasiva (VNI/CPAP) pode ser tentada em casos de insuficiência respiratória moderada, há relatos de sucesso na prevenção da intubação com aplicação precoce de CPAP por máscara facial. Segundo de Oliveira e colaboradores (2004), o uso precoce de CPAP em paciente com SCPH grave demonstrou ser capaz de deter a progressão da insuficiência respiratória e evitar a intubação orotraqueal, com boa evolução clínica, resultado atribuído ao controle rigoroso da reposição volêmica associado à VNI. Contudo, a deterioração clínica pode ser rápida, e a intubação não deve ser protelada quando há sinais de fadiga da musculatura respiratória ou hipoxemia refratária.
A ventilação mecânica invasiva é necessária nos casos de insuficiência respiratória grave. O padrão de lesão pulmonar na SCPH é compatível com SDRA, e o protocolo de ventilação protetora com volumes correntes reduzidos (6 mL/kg de peso predito) e PEEP otimizada é a estratégia recomendada. Estratégias de recrutamento alveolar e posicionamento em prona podem ser necessárias em casos refratários de hipoxemia.
7.4 Manejo Hemodinâmico e do Choque Cardiogênico
O manejo hemodinâmico da SCPH é de particular complexidade, pois o paciente frequentemente apresenta uma combinação de hipovolemia relativa (por extravasamento plasmático) e disfunção miocárdica primária (choque cardiogênico). A reposição volêmica, portanto, deve ser cautelosa e guiada por parâmetros hemodinâmicos cuidadosamente monitorados, o excesso de fluidos agrava o edema pulmonar e piora a oxigenação.
O monitoramento hemodinâmico invasivo com cateter de artéria pulmonar (Swan-Ganz) ou ecocardiografia à beira do leito fornece informações essenciais para orientar a reposição volêmica e o suporte vasoativo. As drogas vasoativas (norepinefrina como vasopressor de escolha, dobutamina para suporte inotrópico na disfunção miocárdica) são utilizadas na presença de choque distributivo ou cardiogênico.
A oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) representa a opção terapêutica mais avançada para pacientes com SCPH grave, choque cardiogênico refratário e hipoxemia refratária às medidas convencionais. A ECMO veno-venosa fornece suporte respiratório extracorpóreo, enquanto a ECMO veno-arterial suporta simultaneamente a função cardíaca e pulmonar. Segundo Pinto Júnior e colaboradores (2015), a implantação de hemofiltração contínua de alto volume (HFAV) em associação com ventilação protetora pode reverter o choque rapidamente em alguns pacientes, auxiliando na diferenciação de casos que responderão ao tratamento convencional daqueles que necessitarão de ECMO. A ECMO, no entanto, requer equipe especializada e infraestrutura de UTI de alto nível, sendo sua disponibilidade ainda limitada no Brasil. O CDC e a OMS recomendam seu uso em centros especializados para pacientes criteriosamente selecionados.
7.5 Medidas de Suporte Adicionais
Além das intervenções já descritas, o manejo integral do paciente com SCPH grave inclui:
- Anticoagulação: deve ser usada com cautela, em virtude da trombocitopenia e das alterações da coagulação; antiagregantes plaquetários devem ser evitados;
- Transfusão de plaquetas: geralmente indicada apenas para plaquetas abaixo de 20.000/mm³ ou na presença de sangramento ativo;
- Suporte renal: hemodiálise ou hemofiltragem em casos de insuficiência renal aguda grave, mais comum com as cepas que cursam com envolvimento renal;
- Nutrição enteral precoce: conforme tolerância hemodinâmica e ventilatória do paciente;
- Profilaxia de trombose venosa profunda: com heparina de baixo peso molecular, após estabilização do quadro hemorrágico;
- Controle glicêmico intensivo na UTI, seguindo protocolos institucionais.
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Epidemiologia Nacional e Perfil dos Casos no Brasil
8.1 Histórico da Doença no Brasil
Desde o registro dos primeiros casos em novembro de 1993, em Juquitiba (SP), a hantavirose se expandiu progressivamente pelo território brasileiro, sendo atualmente reconhecida em 16 Unidades da Federação. No período de novembro de 1993 a dezembro de 2012, foram confirmados 1.602 casos no país, com 869 óbitos e taxa de letalidade de 54,2%. Esse alto índice de mortalidade nos primeiros anos refletia, em parte, o desconhecimento da doença pelos profissionais de saúde, o diagnóstico tardio e a ausência de protocolos de manejo na UTI.
Entre 2013 e dezembro de 2023, foram notificados 13.087 casos suspeitos, com média anual de 1.190 registros. Desse total, foram confirmados 758 casos (média anual de 69), com 299 óbitos pela doença (taxa de letalidade de 39,4%), evidenciando tendência de redução gradual da mortalidade ao longo do tempo, possivelmente reflexo da melhora no reconhecimento diagnóstico e no manejo intensivo. Contudo, essa taxa permanece alarmantemente elevada: quase 40% dos casos confirmados evoluem para óbito.
Os anos com maiores números de casos confirmados no período 2013–2023 foram 2013 (137 casos) e 2015 (113 casos). A pandemia de COVID-19 em 2020 resultou em redução significativa das notificações de hantavirose (509 casos suspeitos naquele ano), fenômeno atribuído à subnotificação e ao comprometimento das atividades de vigilância epidemiológica durante a emergência sanitária.
8.2 Distribuição Geográfica
A hantavirose no Brasil apresenta distribuição regional heterogênea, refletindo a distribuição dos biomas e dos roedores reservatórios. No período 2013–2023, a região Sul concentrou o maior número de casos confirmados (45,3% do total, n=299), especialmente em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, estados com áreas extensas de Mata Atlântica e histórico de fenômenos de ratada associados à floração de taquaras.
A região Centro-Oeste, embora com menor número absoluto de casos, apresentou as maiores taxas de letalidade no período, refletindo a virulência superior do vírus Araraquara, predominante no cerrado. O Distrito Federal registrou taxa de letalidade de 69,2%, e Goiás, de 52,8%, valores que reforçam a gravidade excepcional da cepa Araraquara comparada às cepas do Sul do país.
Os estados com maiores taxas de letalidade históricas foram: Maranhão (100% em alguns períodos), Distrito Federal (69,2%), São Paulo (57,8%) e Goiás (52,8%). No estado de Minas Gerais, nos últimos dez anos, foram confirmados 56 casos de SCPH, com 29 óbitos, taxa de letalidade superior a 52%.
Em 2025, entre as semanas epidemiológicas 1 e 47, o Brasil confirmou 20 casos de SCPH, com 6 mortes e taxa de letalidade de 22,2%, índice superior à média dos últimos quatro anos (12,3%), segundo Alerta Epidemiológico da OPAS/OMS de dezembro de 2025.
8.3 Perfil Epidemiológico dos Casos
O perfil sociodemográfico dos casos de hantavirose no Brasil é consistente ao longo dos anos e revela características que devem orientar as estratégias de prevenção:
- Sexo: aproximadamente 80% dos casos ocorrem em homens, refletindo a maior exposição ocupacional masculina a atividades agrícolas e florestais;
- Faixa etária: a maior concentração de casos ocorre na faixa de 20 a 49 anos (76,4%), com mediana de 33 anos, adultos em plena idade produtiva;
- Área de exposição: cerca de 75% das infecções ocorrem em ambiente rural ou silvestre, com 50% dos casos associados a atividades agrícolas ou pecuárias;
- Local de residência: 48,3% dos casos residem na zona rural, 46,2% em área urbana (muitos infectados durante atividades laborais ou de lazer em zona rural) e 2,4% na zona periurbana.
8.4 Cenário Epidemiológico Regional e Global em 2025
Em âmbito regional, o Alerta Epidemiológico da OPAS/OMS de dezembro de 2025 registrou, entre as semanas epidemiológicas 1 e 47 de 2025, um total agregado de 229 casos e 59 óbitos de síndrome pulmonar por hantavírus nos países das Américas, correspondendo a uma taxa de letalidade regional de 25,7%. Os países que notificaram casos foram: Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Estados Unidos, Panamá, Paraguai e Uruguai.
Em comparação com as médias históricas, a Bolívia e o Paraguai registraram aumentos significativos na incidência, com o Paraguai associado a um surto com exposição em área específica, registrando 21 óbitos e taxa de letalidade de 32%, superior à média dos últimos quatro anos (15,4%). Esses dados evidenciam que a hantavirose continua sendo um problema relevante de saúde pública nas Américas, com potencial para surtos em contextos de alterações ecológicas e climáticas.
Em maio de 2026, o surto no cruzeiro MV Hondius trouxe ao debate internacional a questão da transmissão inter-humana pelo vírus Andes. Cinco casos confirmados e três óbitos foram registrados, com a OMS avaliando como “baixo” o risco de propagação ampla para a população geral, mas não descartando transmissão pessoa a pessoa entre os passageiros. O episódio reforça a importância de alertar equipes de saúde para a possibilidade de casos importados e da transmissão inter-humana em contextos de contato próximo com doentes infectados pelo vírus Andes.
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Vigilância Epidemiológica e Notificação Compulsória
9.1 Bases Legais e Objetivos da Vigilância
A hantavirose é doença de notificação compulsória imediata no Brasil, devendo ser notificada ao Ministério da Saúde em até 24 horas a partir da suspeita clínica, pelas Secretarias Municipais de Saúde, por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan/Net). Essa classificação como notificação imediata reflete a gravidade da doença, a rapidez de sua progressão clínica e a necessidade de resposta oportuna das autoridades de saúde para investigação e controle.
Os objetivos da vigilância epidemiológica da hantavirose incluem:
- Detectar precocemente casos suspeitos e investigar todos os casos confirmados;
- Identificar os fatores de risco e o local provável de infecção (LPI);
- Monitorar a tendência temporal, a distribuição espacial e o perfil epidemiológico dos casos;
- Identificar grupos populacionais sob risco aumentado;
- Orientar medidas de prevenção e controle direcionadas;
- Reduzir a incidência de casos graves e a letalidade da doença.
9.2 Definições de Caso para Fins de Vigilância
As definições de caso utilizadas no sistema de vigilância são as seguintes:
Caso suspeito: indivíduo com doença febril aguda e, pelo menos, um dos seguintes critérios: cefaleia intensa, mialgia intensa, manifestações respiratórias (tosse, dispneia) ou manifestações hemorrágicas, sem outra etiologia estabelecida, com história epidemiológica de possível exposição a roedores nos últimos 60 dias.
Caso confirmado (critério laboratorial): caso suspeito com resultado positivo para um dos seguintes exames realizados em laboratórios da rede do Ministério da Saúde: sorologia reagente para anticorpos IgM específicos para hantavírus (ELISA); imunohistoquímica positiva em tecidos; ou RT-PCR positivo para hantavírus.
Caso confirmado (critério clínico-epidemiológico): caso suspeito com vínculo epidemiológico a caso confirmado por laboratório, em contexto de investigação de surto.
Caso descartado: caso suspeito com resultado laboratorial negativo para hantavírus e diagnóstico alternativo estabelecido.
9.3 Roteiro de Investigação Epidemiológica
A investigação de todo caso suspeito de hantavirose deve seguir roteiro sistemático que inclui: preenchimento da ficha de investigação do Sinan; identificação do local provável de infecção mediante anamnese detalhada sobre atividades realizadas nos 60 dias anteriores; coleta de amostras biológicas para diagnóstico laboratorial; busca ativa de casos secundários entre pessoas com exposição semelhante ao mesmo ambiente; e avaliação ecoepidemiológica do ambiente suspeito, com captura e análise de roedores quando indicado.
A comunicação rápida entre os serviços de assistência, a vigilância epidemiológica municipal e as secretarias estaduais de saúde é essencial para a tomada de decisão oportuna e para a implementação de medidas de controle ambiental no local provável de infecção.
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Prevenção e Controle
10.1 Princípios Gerais
Na ausência de vacina disponível para uso humano no Brasil, a prevenção da hantavirose baseia-se inteiramente em medidas que reduzem a exposição humana ao vírus, seja pela diminuição da densidade populacional de roedores nos ambientes de vida e trabalho humano, seja pela proteção individual durante atividades de risco. O Manual de Vigilância, Prevenção e Controle das Hantaviroses do Ministério da Saúde (2013) estabelece as diretrizes nacionais para essas medidas, que podem ser agrupadas em três categorias: medidas ambientais e estruturais, medidas de proteção individual e educação em saúde.
10.2 Medidas Ambientais e Estruturais
As medidas ambientais visam tornar os ambientes de vida e trabalho humano menos atraentes e acessíveis aos roedores silvestres:
- Manutenção e limpeza de terrenos: roçar e manter limpo o entorno de habitações, galpões e edificações rurais, eliminando possíveis abrigos de roedores (montes de entulho, madeiras empilhadas, vegetação densa junto às construções);
- Armazenamento adequado de alimentos e grãos: manter alimentos estocados em recipientes fechados e à prova de roedores; utilizar silos e tulhas em boas condições estruturais;
- Distância mínima entre construções e vegetação nativa: recomenda-se distância mínima de 50 metros entre habitações/instalações rurais e áreas de mata ou pasto natural;
- Vedação de edificações: tampar buracos e frestas em paredes, forros e fundações que possam servir de entrada para roedores;
- Destinação adequada de resíduos sólidos: eliminação de fontes de alimento para roedores (lixo orgânico, resíduos de colheita);
- Controle de roedores: quando a densidade de roedores silvestres é elevada nas proximidades de habitações ou áreas de trabalho, o uso de raticidas e armadilhas pode ser necessário, sempre com orientação de profissional habilitado e observância das normas de biossegurança para o descarte dos roedores capturados.
10.3 Proteção Individual e Equipamentos de Proteção Individual (EPI)
A proteção individual é essencial para trabalhadores rurais, agricultores, lenhadores, pesquisadores de campo e qualquer pessoa que realize atividades em ambientes potencialmente contaminados com excretas de roedores. As medidas incluem:
- Respirador: o CDC recomenda o uso de respirador purificador de ar semifacial com filtro N100 ou P100 (mínimo PFF3/N95) durante limpeza de ambientes fechados ou potencialmente contaminados com excretas de roedores;
- Luvas: uso de luvas de borracha ou nitrilo durante o manuseio de roedores mortos, limpeza de ambientes contaminados ou realização de atividades com risco de contato com excretas;
- Umedecimento de superfícies: antes de qualquer varredura ou limpeza de áreas com presença de excretas de roedores, as superfícies devem ser umedecidas com desinfetante a base de hipoclorito de sódio (1%) para inativar o vírus e evitar a aerosolização;
- Evitar varrer a seco: a varrição a seco de ambientes potencialmente contaminados está contraindicada, pois promove a aerosolização das partículas virais;
- Proteção para acampamento: evitar dormir diretamente no solo em áreas florestais ou rurais com sinais de presença de roedores; utilizar redes ou camas afastadas do solo.
10.4 Procedimentos de Desinfecção
Ambientes com evidência de infestação por roedores silvestres devem ser desinfetados antes da limpeza, seguindo protocolo específico:
- Ventilar o ambiente por pelo menos 30 minutos antes de entrar;
- Utilizar EPI completo (respirador PFF3, luvas, avental, óculos);
- Borrifar solução de hipoclorito de sódio a 1% (ou detergente doméstico diluído) sobre todas as superfícies e excretas visíveis;
- Aguardar pelo menos 15 a 30 minutos de contato da solução desinfetante;
- Recolher as excretas e material contaminado com pano umedecido ou papel, depositando em sacos plásticos duplos para descarte adequado;
- Lavar as superfícies com água e sabão ou desinfetante;
- Descartar os EPI usados em sacos plásticos fechados.
10.5 Orientação para Trabalhadores de Saúde e Controle Hospitalar
No contexto hospitalar brasileiro, as precauções para o manejo de pacientes com SCPH são, de forma geral, as precauções-padrão, sem necessidade de isolamento respiratório adicional, dado que a transmissão inter-humana é exclusiva do vírus Andes, não circulante no Brasil. Isso significa que o profissional de saúde que maneja o paciente internado não corre risco de infecção por via respiratória, desde que observe as medidas padrão de higiene e uso de EPI para procedimentos que envolvam contato com sangue ou fluidos corporais.
No entanto, para casos com suspeita de infecção pelo vírus Andes (pacientes provenientes da Argentina ou do Chile, ou com histórico de contato com caso confirmado de infecção por esse vírus), recomenda-se a adoção de precauções de contato e gotículas, com uso de máscara cirúrgica e luvas, em virtude do risco teórico de transmissão inter-humana. Em contexto de surto com vírus Andes, como o ocorrido no cruzeiro MV Hondius em 2026, a OMS recomendou o uso de EPI adequado para profissionais de saúde.
Os laboratórios clínicos que processam amostras de pacientes suspeitos de hantavirose devem observar as normas de biossegurança nível 3 (NB-3) para o cultivo viral e estudos que envolvam manipulação do vírus em estado ativo. O processamento de amostras sorológicas e moleculares pode ser realizado em nível NB-2 com cuidados adicionais, conforme orientação do Manual do Ministério da Saúde.
10.6 Educação em Saúde e Comunicação de Risco
A educação em saúde constitui componente indispensável das estratégias de prevenção da hantavirose, especialmente em comunidades rurais e entre trabalhadores que exercem atividades de risco. As ações educativas devem incluir:
- Informação sobre o ciclo de transmissão do vírus e os principais fatores de risco;
- Orientação sobre sintomas de alerta e a necessidade de busca imediata de atendimento médico ao apresentar febre e mialgia após exposição de risco;
- Instrução sobre as medidas de proteção individual e de adequação ambiental;
- Capacitação de profissionais de saúde da atenção básica para o reconhecimento precoce da síndrome e a notificação imediata.
Segundo o Ministério da Saúde, trabalhadores potencialmente expostos ao risco devem ser orientados a buscar assistência médica imediatamente ao apresentar febre ou qualquer doença respiratória em um período de até 60 dias após uma possível exposição, informando ao profissional de saúde sua história epidemiológica.
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Perspectivas de Pesquisa: Vacinas e Novas Abordagens Terapêuticas
11.1 Desenvolvimento de Vacinas
A ausência de vacina eficaz contra as cepas americanas de hantavírus, especialmente o vírus Araraquara, representa uma das maiores lacunas na prevenção da doença no Brasil. Pesquisadores do Centro de Pesquisa em Virologia da USP de Ribeirão Preto, liderados pelo Professor Luiz Tadeu Figueiredo, desenvolveram uma proteína recombinante do hantavírus Araraquara expressa em bactéria (Escherichia coli), atualmente utilizada no diagnóstico (ELISA), com perspectiva de uso como candidata vacinal. Segundo Figueiredo (2013), “inferimos estatisticamente que o Araraquara é, provavelmente, o hantavírus mais virulento no Brasil e no mundo”, o que torna a perspectiva de uma vacina ainda mais urgente.
Na Ásia, vacinas inativadas para as cepas Hantaan e Seoul estão em uso na Coreia do Sul e China há décadas, com eficácia documentada contra a FHSR. No entanto, essas vacinas não apresentam proteção cruzada adequada contra os hantavírus americanos. Candidatos vacinais baseados em partículas similares a vírus (VLP), DNA e vetores virais estão em fase de pesquisa pré-clínica e clínica inicial para as cepas americanas, incluindo o Sin Nombre e o Andes.
A administração de anticorpos policlonais (plasma hiperimune) de doadores convalescentes tem sido explorada como terapia passiva para casos graves de SCPH. Um caso relatado por pesquisadores brasileiros documenta tratamento bem-sucedido com hemofiltração de alto volume e plasma hiperimune contra hantavírus em paciente com SCPH grave e choque refratário. Ensaios clínicos com anticorpos monoclonais neutralizantes estão em desenvolvimento para os hantavírus americanos.
11.2 Mudanças Climáticas e Expansão do Risco
As mudanças climáticas representam um dos mais relevantes fatores de amplificação do risco de hantavirose no presente século. Segundo revisão publicada em 2025, invernos mais amenos, eventos aumentados de frutificação de árvores e a perda de diversidade de pequenos mamíferos estão contribuindo para maior prevalência de ortohantavírus e expansão da área geográfica de risco na Europa e nas Américas. No Brasil, a expansão da fronteira agrícola, o desmatamento e as alterações do regime pluviométrico associadas ao aquecimento global são fatores que favorecem o crescimento das populações de roedores reservatórios e, consequentemente, o aumento do risco de transmissão.
Estudo desenvolvido na USP (2017) demonstrou que a expansão da cultura de cana-de-açúcar e as mudanças climáticas projetadas para o estado de São Paulo devem ampliar significativamente o risco de infecção pelo hantavírus Araraquara nas próximas décadas. Esses achados têm implicações diretas para o planejamento das ações de vigilância epidemiológica e para a alocação de recursos de saúde pública em áreas de expansão agrícola.
11.3 Bioinformática, Genômica e Vigilância Molecular
O sequenciamento de nova geração (NGS) e as ferramentas de bioinformática têm revolucionado a capacidade de caracterização molecular dos hantavírus, permitindo identificar novas cepas, rastrear rotas de disseminação viral, investigar possíveis eventos de spillover (transmissão de vírus de espécies reservatórias não primárias para roedores simpátricos) e estudar a evolução viral. A vigilância molecular integrada, articulando dados genômicos dos vírus isolados em roedores e em humanos, representa o futuro da ecovigilância para hantavírus no Brasil, e tem sido fomentada pela Fiocruz e por grupos de pesquisa universitários.
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Implicações para o Controle de Infecção Hospitalar e a Prática da CCIH
12.1 Responsabilidades da Equipe de CCIH
Para os profissionais que atuam na Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e no Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH), a hantavirose apresenta desafios específicos que devem ser incorporados aos protocolos institucionais. A CCIH tem papel fundamental na educação dos profissionais de saúde sobre os riscos e medidas de prevenção, na elaboração de protocolos de atendimento e isolamento para casos suspeitos e confirmados, e na articulação com a vigilância epidemiológica municipal e estadual.
Os principais pontos de atenção para a CCIH incluem:
- Treinamento da equipe de saúde: todos os profissionais que atuam em unidades de terapia intensiva, emergências e clínica médica devem ser capacitados para reconhecer o quadro clínico-epidemiológico da hantavirose e para adotar as precauções apropriadas no manejo do paciente;
- Elaboração de protocolos de notificação: estabelecer fluxo interno claro para a notificação compulsória imediata de casos suspeitos, com envolvimento do médico assistente, da equipe de enfermagem e do SCIH;
- Manejo de amostras laboratoriais: orientar o laboratório clínico sobre as normas de biossegurança para o processamento de amostras de pacientes suspeitos de hantavirose;
- Gerenciamento de casos importados: em um contexto globalizado, como evidenciado pelo surto do cruzeiro MV Hondius em 2026, a CCIH deve ter protocolos atualizados para o manejo de casos importados de infecção pelo vírus Andes, com adoção de precauções de contato e gotículas.
12.2 Notificação e Investigação: Interface com a Vigilância Epidemiológica
A notificação compulsória imediata ao Sinan é obrigação legal do médico assistente e de todos os profissionais de saúde, devendo ser realizada em até 24 horas após a suspeita diagnóstica. A CCIH deve garantir que esse fluxo funcione de forma eficiente e que a ficha de investigação epidemiológica seja preenchida com as informações mais completas possíveis, especialmente no que diz respeito ao local provável de infecção, às atividades de risco realizadas nos 60 dias anteriores e aos contatos potencialmente expostos.
A interface entre a CCIH e a vigilância epidemiológica municipal é essencial para o desencadeamento da investigação de campo no local provável de infecção, para a busca ativa de casos secundários e para a implementação de medidas de controle ambiental que possam prevenir novos casos na mesma área.
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Considerações Finais: A Hantavirose como Desafio Permanente para a Saúde Pública Brasileira
A hantavirose permanece como uma das zoonoses de maior letalidade no Brasil e nas Américas, representando um desafio persistente para a saúde pública, o controle de infecção hospitalar e a gestão de sistemas de saúde. Sua epidemiologia está intrinsecamente ligada aos biomas brasileiros, às atividades produtivas rurais e às condições de vida das populações do campo, fatores que definem, em última análise, o contorno do risco individual e coletivo de adoecimento.
A elevada taxa de letalidade observada no Brasil, historicamente entre 39% e 54%, com o vírus Araraquara atingindo até 80% de mortalidade nos casos mais graves, impõe ao sistema de saúde a obrigação de investir continuamente na capacitação dos profissionais, na vigilância epidemiológica ativa e no fortalecimento das UTIs, especialmente nas regiões de maior prevalência. O reconhecimento clínico precoce, baseado na tríade febre-mialgia-trombocitopenia em contexto epidemiológico rural, seguido de internação imediata e manejo intensivo adequado, continua sendo a principal intervenção capaz de reduzir a mortalidade na ausência de antiviral específico eficaz.
O surto de hantavirose a bordo do cruzeiro MV Hondius em 2026, com possível transmissão inter-humana pelo vírus Andes, demonstra que, em um mundo altamente conectado, agentes zoonóticos localmente circunscritos podem adquirir dimensão internacional em questão de dias, demandando respostas rápidas e coordenadas de vigilância epidemiológica global. Para os profissionais que atuam no controle de infecção hospitalar, isso reforça a necessidade de manter protocolos atualizados, equipes treinadas e canais de comunicação eficientes com a vigilância epidemiológica em todos os níveis do sistema de saúde.
Finalmente, o horizonte de pesquisa aponta para desenvolvimentos promissores: vacinas candidatas em desenvolvimento, avanços na genômica e na bioinformática viral, e melhor compreensão dos mecanismos imunopatogênicos que poderão abrir caminho para terapias imunomoduladoras. Enquanto essas ferramentas não chegam à prática clínica, a prevenção baseada em evidências, com controle ambiental dos roedores, proteção individual dos trabalhadores rurais, educação em saúde e vigilância epidemiológica robusta, continua sendo o pilar fundamental no enfrentamento da hantavirose no Brasil.
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Autora
Karine Oliveira
Enfermeira | Gerente Educacional do Instituto CCIH+
Especialista em Gestão em Saúde e Controle de Infecção | Qualidade e Segurança do Paciente
Mestranda em Enfermagem com foco em Gerenciamento de Incidentes e Eventos Adversos
Presidente da AGIH (Associação Gaúcha de Profissionais em Controle de Infecção) – Gestão 2025–2027
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